A saga do profeta Eliseu:
A mística do manto
Por Frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.
Contemplando o altar-mor da Basílica do Carmo de Recife, vemos que a imponente imagem de Nossa Senhora está ladeada pelas imagens dos profetas Elias e Eliseu. Enquanto Elias segura em sua mão a maquete de uma igreja, Eliseu se apresenta com um jarro. Segundo a tradição, Elias é o fundador espiritual da Ordem do Carmo, representada pela maquete da igreja, enquanto Eliseu foi o seu continuador; aquele que regou a plantinha. Mais ou menos como na fundação da Igreja em Corinto: “Eu, Paulo plantei; Apolo regou; mas é Deus quem dá o crescimento” (1Cor 3,6).

Por conseguinte, juntamente com Maria, Elias e Eliseu são as figuras emblemáticas da espiritualidade carmelitana. São as três estrelas que aparecem no escudo da Ordem. Neste artigo, procurarei dar maior destaque à pessoa de Eliseu, exatamente por ser o menos conhecido dos três. Para o leitor interessado no aprofundamento bíblico, confirmo que a saga de Eliseu se encontra em 1 Rs 19, 19-21; 2Rs 2-9; 13, 14-21.
Quando Elias estava no Monte Horeb, Deus ordenou-lhe que ungisse Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meula, como profeta em seu lugar. Partindo da península sinaítica, Elias retornou ao território de Israel, de onde havia fugido por medo da rainha Jezabel. Quando atingiu a fértil planície de Esdrelon, Elias topou com uma cena gratificante: após três anos e meio de uma seca devastadora, a chuva que ele tanto pedira a Deus, havia transformado a planície num imenso jardim, como canta o Salmo 65, 10-14: “Visitas a terra e a regas, cumulando-a de riquezas… As pastagens do deserto gotejam e as colinas cingem-se de júbilo; os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales se vestem de espigas! Clama-se, cantam-se hinos!” (Parece-me até estar ouvindo o nosso velho Luís Gonzaga rasgar o fole e gritar a plenos pulmões: “Ai, ai: o povo alegre, e mais alegre a natureza!”).
Para coroar o bucolismo da cena, doze arados, cada um puxado por uma junta de bois e conduzido por um agricultor, estavam preparando a terra para o plantio. Elias reconheceu que estava em Abel-Meula e que quem conduzia o duodécimo arado era justamente Eliseu, o filho de Safat. Não teve dúvidas: aproximou-se do abastado proprietário e, sem proferir palavra, colocou seu manto sobre os ombros de Eliseu.

Comenta a Bíblia de Jerusalém: “O manto simboliza a personalidade e os direitos do seu dono. Elias adquire assim um direito sobre Eliseu, que não pode se furtar”.
Eliseu entendeu bem a ação simbólica do profeta. Abandonando o arado e os bois, correu atrás de Elias e disse: “Deixa-me abraçar meu pai e minha mãe; depois te seguirei!” Elias concordou, mas acrescentou: “Vai e volta, pois tu sabes o que te fiz!”
O sisudo profeta foi bem mais complacente que o manso e humilde Jesus de Nazaré. Este, com efeito, ao ouvir o pedido de um dos seus chamados: “Eu te seguirei, Senhor, mas permite primeiro despedir-me dos que estão em minha casa, foi curto e grosso: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 61-62).
Acontece, porém, que tanto Elias como Jesus sabiam com quem estavam lidando. Elias não precisava se preocupar com a atitude de Eliseu. Este estava tão disposto a seguir imediatamente o seu mestre que, para evitar uma possível volta à sua vida anterior, matou os dois bois e queimou o arado. Ou seja: rompeu em definitivo os laços que o prendiam ao passado. Destruiu toda chance de olhar para trás. Depois, livre e despojado, colocou-se à disposição de Elias, na qualidade de servo, até o dia em que este foi arrebatado ao céu.
Quando Elias, por inspiração divina, percebeu que seria arrebatado, tratou de ficar a sós com Deus, a fim de viver o mais intensamente possível mais uma inefável experiência mística. Por isso, disse a Eliseu: “Fica aqui, em Guilgal, pois Javé me envia a Betel”. Eliseu, por sua vez, também inspirado pela mesma fonte divina, respondeu qua não o deixaria em hipótese alguma. Este mesmo diálogo haveria de se repetir em Betel e em Jericó.
Deixando Jericó, os dois tomaram a direção leste e chegaram às margens do rio Jordão.. Acompanharam-nos cerca de 50 “irmãos profetas”. Estes pertenciam a uma vasta organização, que parece ter suas origens nos tempos de Samuel (cf. 1Sm 10, 5-6.10-13; 19, 20-24). Eliseu aparece como sendo o diretor espiritual de vários grupos dessa confraria (cf. 2Rs 2, 3-7).
Pois bem: chegando às margens do Jordão, Elias tomou o seu manto, enrolou-o e bateu com ele nas águas, que prontamente se abriram, deixando os dois profetas passarem a pé enxuto. Os 50 “irmãos profetas” permaneceram respeitosamente no lugar em que estavam, mas observavam curiosamente tudo o que os dois profetas faziam. Enquanto isso, na outra margem do rio, Elias disse a Eliseu: “Pede o que queres que eu faça por ti, antes de ser arrebatado da tua presença”. Eliseu, sem pestanejar, pediu que lhe fosse dada uma dupla porção do espírito de Elias. Eliseu tinha consciência de ser o filho primogênito de Elias; todos os demais irmãos profetas vieram depois dele. Por conseguinte, sendo o primogênito, ele tinha direito a uma porção dupla da herança paterna (cf. Dt 21,17).
Elias achou o pedido muito difícil de ser atendido, pois o espírito profético não se transmite; é dom exclusivo de Deus, que o dá a quem Ele quer. Porém, o próprio Deus se encarregou de revelar aos dois profetas o sinal de que tal pedido seria acolhido. Elias disse a Eliseu: “Pediste uma coisa difícil; todavia, se me vires ao ser arrebatado da tua presença, isso te será concedido; caso contrário, não”.
Enquanto os dois conversavam, “um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu no turbilhão”.
A cena da assunção de Elias costuma ser retratada em muitas igrejas antigas carmelitanas; inclusive, no forro da Basílica do Carmo, no Recife. E nunca faltaram pessoas preocupadas em oferecer uma explicação que convençam os leitores modernos da Bíblia. Nem faltou até quem pensasse que tudo não passaria de uma visão interna tida por Eliseu. Pura perda de tempo: querer explicar o inexplicável. Estamos aqui num contexto do Antigo Testamento, onde é muito frequente aplicarem-se a Deus figuras antropomórficas, como esta bela citação do Salmo 18, 10-13: “Deus inclinou o céu e desceu, tendo aos pés uma nuvem escura; cavalgou um querubim e voou, planando sobre as asas do vento… à sua frente um clarão inflamava granizo e brasas de fogo”. Ou esta outra do Salmo 104, 3-4: “Javé, tomou as nuvens como seu carro, caminhando sobre as asas do vento; fazendo dos ventos seus mensageiros, das chamas de fogo seus ministros”.

Bem fez Eliseu que, em vez de se preocupar com explicações inúteis, preocupou-se antes em apanhar o manto, que Elias deixara cair, ao ser arrebatado ao céu. Apanhou-o com sofreguidão, certo de que ali estava o sinal evidente de que Deus ouvira o seu pedido. Aquele mesmo manto, que havia sido colocado provisoriamente sobre os seus ombros, agora lhe era devolvido em caráter definitivo: Eliseu herdava assim o espírito e a missão de Elias.
De posse daquele manto, voltou para a beira do rio Jordão e, sem hesitar, repetiu o gesto do seu chefe: enrolou-o e bateu com ele nas águas correntes, que se dividiram de um lado e do outro, permitindo que Eliseu voltasse a atravessá-lo a pé enxuto. Os irmãos profetas, que permaneciam lá, aguardando o desfecho da ação, concluíram que Eliseu herdara, de fato, o espírito de Elias; e voltaram com ele para Jericó.
(Publicado em A Partilha nº 183, de julho de 2016)









