O profeta e as ursas assassinas
Frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.
Dando continuidade ao meu artigo anterior, intitulado: “A Saga de Eliseu: A Mística do Manto”, vamos retomar o final do capítulo 2 do Segundo Livro dos Reis.
De posse daquele manto, que fora de Elias, Eliseu retornou a Jericó. Os habitantes daquela velha cidade (efetivamente, Jericó é reconhecida como a cidade mais antiga do mundo, e também como a mais baixa, cerca de 300 metros abaixo do nível do mar) mostraram ao profeta que, embora o ambiente fosse agradável, ela tinha um gravíssimo problema: suas águas eram ruins e tornavam o país estéril. Eliseu num instante resolveu o problema da comunidade, saneando a fonte das águas com sal. “E as águas se tornaram sadias até o dia de hoje”.
“Até o dia de hoje”, diz a Bíblia. “Até o dia de hoje”, confirmam todos os que vão a Jericó. Eu próprio já estive lá uma meia dúzia de vezes e visitei a famosa “Fonte de Eliseu”, que continua borbulhando límpida, no sopé de Tell-es-Sultan, fazendo do oásis de Jericó uma das mais ricas zonas agrícolas de todo o Oriente Médio.
Este foi o primeiro milagre de Eliseu. Por sinal, bem alvissareiro! Entretanto, se o primeiro foi auspicioso, o segundo foi desastroso. Vou citá-lo diretamente da Bíblia de Jerusalém: “De lá subiu a Betel; ao subir pelo caminho, uns rapazinhos que saíram da cidade zombavam dele, dizendo: ‘Sobe, careca! Sobe careca!’ Eliseu virou-se, olhou para eles e os amaldiçoou em nome de Javé. Então saíram do bosque duas ursas e despedaçaram quarenta e dois deles. Dali foi para o Monte Carmelo e depois voltou para Samaria” (2Rs 2,23-25).

Como entender tamanha barbaridade, perpetrada por um “homem de Deus” e “em nome de Deus”? Interessante é que o autor sagrado não faz o menor comentário a propósito, como se estivesse narrando a coisa mais natural do mundo. Já uma das minhas ouvintes e leitoras, bem enfronhada em tudo quanto diz respeito à Bíblia e à espiritualidade, foi muito enfática: “Jamais perdoarei Eliseu por crime tão terrível!”
Por acaso, chamar alguém de careca é crime hediondo? Por outro lado, se o texto fala de “quarenta e dois deles”, é sinal de que o número dos moleques zombadores deveria ser bem maior. Ora, conseguir reunir tantos zombeteiros assim é sinal de que se tratava de coisa orquestrada; algo mais deveria estar por trás de tal manifestação.
Alguns estudiosos levantaram a questão: trata-se apenas de uma calvície natural, ou de uma tonsura? Conforme o Dicionário Houaiss, “a tonsura é o corte redondo no topo das cabeças dos eclesiásticos”. A Bíblia Ecumênica traduz assim: “Vai, rapado! Vai, rapado”!
A propósito, temos um texto curioso nesse mesmo contexto bíblico. Vou transcrevê-lo conforme a Bíblia de Jerusalém: “Um dos irmãos profetas disse a seu companheiro: ‘Fere-me!’ mas este recusou-se a fazê-lo. O profeta encontrou-se com outro homem e disse: ‘Fere-me!’ O homem desferiu-lhe um golpe e o feriu. O profeta partiu e ficou o rei Acab na estrada; tinha ficado irreconhecível com a atadura que pôs por cima dos olhos. Ao passar o rei, ele gritou-lhe: ‘Teu servo ia ao combate quando alguém saiu das fileiras e trouxe-me um homem, dizendo: ‘Guarda este homem! Se ele desaparecer, tua vida responderá pela sua ou, então, pagarás um talento de prata’. Ora, enquanto teu servo estava ocupado aqui e ali, o outro desapareceu’. O rei de Israel disse-lhe;’Esta é a tua sentença! Tu mesmo a pronunciaste!’ E sem demora, o homem tirou a atadura que trazia acima dos olhos e o rei de Israel reconheceu que ele era um dos profetas. Ele disse ao rei: ‘Assim fala Javé: porque deixaste escapar um homem que eu tinha votado ao anátema, tua vida responderá por sua vida e teu povo por seu povo’. E o rei de Israel voltou para casa aborrecido e irritado e entrou em Samaria” (1Rs 20, 35-43).
É muito provável que os profetas tivessem algum sinal distintivo sobre a fronte: uma tatuagem, incisão ou tonsura. De minha parte, descarto a tatuagem, por esta ser proibida pela própria Bíblia: “Não fareis nenhuma tatuagem. Eu sou Javé” (Lv 19,28). A hipótese da tonsura é a mais convincente. Sendo assim, a garotada de Betel não estava xingando propriamente um careca; estava xingando um profeta de Javé. Não devemos esquecer que todo o ciclo de Elias e Eliseu foi marcado pela guerra sangrenta entre os adoradores de Baal, uma divindade cananeia, implantada a ferro e fogo pela rainha Jezabel, esposa de Acab, e os adoradores de Javé, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
Acab, rei de Israel, desposou Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios, e passou a servir Baal e a adorá-lo; erigiu-lhe um altar no templo de Baal, que construiu em Samaria (cf. 1Rs 16, 31-32). O projeto de Jezabel era eliminar todos os profetas de Israel, substituindo-os pelos quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, que ela trouxe do seu país. Tal projeto virou tragédia, que foi comunicada ao profeta Elias pelo próprio intendente do palácio de Acab, o fiel Abdias: “Porventura não foi contado ao meu senhor Elias o que eu fiz quando Jezabel massacrou os profetas de Javé? Escondi cem profetas de Javé, em grupos de cinquenta, numa gruta e lhes forneci pão e água” (1 Rs 18,13).
Por sua vez, o profeta Elias degolou os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal (1Rs 18,40). Neste contexto de “guerra Santa”, onde a violência campeia em ambos os lados, a narrativa das duas ursas de Eliseu, tão constrangedora para nós, transmitia aos antigos leitores e ouvintes, um sentimento de santidade que o profeta Eliseu incorporava. Como acontecia, por exemplo, com a Arca da Aliança, que poderia causar a morte de quem a tocasse indevidamente (cf. 2Sm 6,6-11). Assim também a santidade de Eliseu não podia ser escarnecida. Não esqueçamos o que diz o Salmo 105: “Não toqueis nos meus ungidos, não façais mal aos meus profetas” (Sl 105, 15)! Qualquer texto só poderá ser bem entendido quando colocado devidamente no seu contexto, tendo em vista o seu pré-texto.
Para que o leitor não julgue Eliseu apenas por este ângulo, sugiro-lhe que leia 2Rs 4, 1-7), onde se narra que ele foi procurado pela viúva de um dos irmãos profetas. Depois da morte do marido, esta se viu reduzida a tal penúria que não podia pagar umas dívidas. O credor ameaçara levar-lhe os dois filhos como escravos. Eliseu, então, multiplicou o restinho de óleo que ela possuía em quantidade tal, que não só deu para pagar as dívidas como garantiu o sustento da família por um bom tempo.
Cuidar dos órfãos e das viúvas é a obra de misericórdia mais recomendada pela Bíblia! “É a religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai” (Tg 1,27)! O tradicional hinário carmelitano relembra o episódio:
“Da pobreza da viúva cheia de fé compadeceu-se,
E, multiplicando o seu óleo, o pranto desvaneceu-se”. E viva Eliseu!
(Publicado em A Partilha nº 184 de agosto de 2016)









