A insensibilidade do coração
Frei Geraldo de Araújo Lima, O.C
“Cuidado para que os vossos corações não se tornem insensíveis por conta da devassidão, da embriaguez ou das preocupações da vida” (Lc 21,34).
Muito importante esta advertência do divino Mestre: “que os vossos corações não se tornem insensíveis!” Efetivamente, para que serve um coração insensível? Ter coração insensível é o mesmo que não ter coração.
Para a Bíblia, o coração representa todo o nosso ser interior: nossa inteligência, nossa consciência, nossa afetividade. Daí a constante preocupação de Deus, já no Antigo Testamento, com o coração humano – que é a única coisa que Ele quer de nós: “Meu filho, dá-me o teu coração” (Pv 23,26). Todavia, Ele não quer um coração duro e insensível. Muito ao contrário: “Dar-vos-ei um coração novo, porei no vosso íntimo um espírito novo, tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26).
Inspirado como sempre, Pe. Zezinho captou muito bem esses anseios divinos: “Um coração para amar, para perdoar e sentir, para chorar e sorrir, ao me criar Tu me deste; um coração para sonhar, inquieto e sempre a bater, ansioso por entender as coisas que Tu disseste: eis o que eu venho Te dar, eis o que eu ponho no altar. Toma, Senhor, que ele é Teu. Meu coração não é meu!”
Um coração de pedra não sente o pulsar da natureza, as palpitações da vida, os toques da graça… Não se comove com o drama da fome, da solidão, do desemprego, da injustiça, que massacra milhões de seres humanos. O coração de pedra é o verdadeiro assassino da humanidade. Sem coração, até os brutos se tornam mais brutos. Que o diga a mãe do “menino da porteira” (lembram-se daquela velha canção sertaneja?): “Quem matou o meu filho, seu moço, foi um boi sem coração!”
Deus Pai diria: “Quem matou o Meu Filho, gente, foi um mundo sem coração!”

Jesus estava mais uma vez na sinagoga de Cafarnaum, num dia de sábado. Lá estava um homem com uma das mãos atrofiadas, e um grupo de fariseus já à espreita, esperando para ver se Ele iria ousar de novo transgredir a lei sagrada do sábado com mais um milagre. O Mestre lhes fez uma pergunta óbvia: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar?” Por resposta obteve apenas um silêncio cúmplice e covarde. “Repassando então sobre eles um olhar de indignação, e entristecido pela dureza do coração deles, Jesus curou o homem.” (Mc 3,1-5).
Ao longo de toda a Bíblia, o povo judeu foi sempre denunciado como sendo de coração endurecido, como o declarou abertamente o diácono Estêvão: “Homens de dura cerviz, incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo! Como foram vossos pais, assim também vós” (At 7,51)! Apoiando-se em Isaías (6,9-10), Jesus lamenta essa mesma realidade, que dificulta tanto o Seu trabalho redentor: “O coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram de má vontade, e fecharam os olhos para não acontecer que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e assim Eu os cure” (Mt 13,15)!
Contudo, não pensemos que essas coisas sejam apenas reminiscências de um passado remoto. Muito ao contrário: com as enxurradas de más notícias, que a televisão despeja diariamente em nossos lares; com essa violência absurda que campeia em nossas ruas; com o mar de lama das corrupções; com as gritantes injustiças sociais; com tantas guerras e atentados; com a incontrolável depravação moral e a consequente falta de vergonha; com tantos desastres e catástrofes naturais (secas, enchentes, terremotos, maremotos, furacões, vulcões); com essa fome insaciável de dinheiro, “que é a raiz de todos os males” (1Tm 6,10)… é extremamente fácil perdermos a sensibilidade do coração.
Por estas e outras razões é que nos identificamos tão facilmente com a música do Pe. Joãozinho:
“Às vezes no meu peito bate um coração de pedra; magoado, frio, sem vida, aqui dentro ele me aperta; não quer saber de amar nem sabe perdoar, quer tudo e não sabe partilhar. Jesus, manda Teu Espírito para transformar meu coração!”

Senhor Jesus, no meio em que vivemos quantas coisas podem petrificar o nosso coração: a ganância, o egoísmo, o orgulho, o hedonismo… Entretanto, para recuperá-lo há somente uma: o amor. Mas aquele amor que vos levou a morrer com o coração aberto para que ninguém mais viva com o coração fechado. Fazei-nos santos, pois “os santos têm o coração de cera” (S. João Maria Vianney)!
| PARA REFLETIR |
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| 1- O que o texto ensina sobre o coração humano? 2- Como a insensibilidade do coração se manifesta hoje? 3- Abro-me a ação de Jesus que quer transformar meu coração num coração semelhante ao seu? |









