O profeta e a política
Por Frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.
Com este artigo, encerramos a série “A Saga de Eliseu”. Ele dá sequência aos quatro títulos anteriores: “A Mística do Manto”, “O Profeta e suas ursas assassinas”, “O Profeta e a Sunamita” e “A Lepra do General”.
Não obstante as óbvias semelhanças entre Elias e Eliseu (por exemplo: a ressurreição de dois garotos falecidos [1Rs 17, 17-24; 2Rs 4, 18-37]; a dupla multiplicação dos alimentos [1Rs 17,7-16; 2Rs 4, 42-44]; as duas travessias do rio Jordão a pé enxuto [2Rs 2, 8.14], as diferenças são gritantes. Elias é um homem marcadamente solitário; e ele próprio faz questão de frisá-lo: “Fiquei somente eu, e procuram tirar-me a vida” (1Rs 19, 10.14). Já Eliseu sempre aparece entrosado com as várias comunidades dos “filhos dos profetas”, que viam nele uma presença paterna (cf. 2Rs 2, 3-7; 4, 38-41; 6, 1-7).

Essa marca da solidão de Elias vem de longe: ele é abruptamente introduzido na Bíblia sem nenhuma genealogia, sem nenhum precedente; apenas com esta magérrima informação: “Elias,, tesbita, um dos habitantes de Galaad” (1Rs 17,1). A própria palavra tesbita é tão solitária quanto o Profeta: só é mencionada esta única vez em toda a Bíblia; e ainda com uma dúvida: refere-se a um local ou a algum clã?
Já com Eliseu, o cenário é outro. Elias vai encontrá-lo arando a sua propriedade na planície de Esdrelon, conduzindo o décimo segundo arado com sua respectiva junta de bois. Despede-se dos pais e dos seus trabalhadores com um bom almoço.
Elias viveu sempre sob o signo das perseguições: Levanta-te… Foge… Esconde-te… (1Rs 17, 3.9; 19,3). Tais perseguições mantiveram-no à margem dos compromissos políticos e o lançaram na solidão, na busca permanente de Deus.
Por sua vez, Eliseu nunca aparece sendo perseguido. Com raras exceções, sempre manteve boas relações com os quatro reis consecutivos, que ocuparam o trono de Israel durante a sua atuação profética: Jorão, Jeú, Joacaz e Joás. Até a coincidência dos j justificam essa justeza!

Jorão (2Rs 3,13). – Jorão, rei de Israel, e Josafá, rei de Judá, uniram-se ao rei de Edom para combater Mesa, rei Moab (2Rs 3, 4-27). Após sete dias de marcha pelo deserto, faltou água. Diante do desespero geral, Josafá sugeriu que se procurasse o profeta Eliseu para consultar Javé. Porém, quando se viu frente a frente com Jorão, o filho de Acab e de Jezabel, Eliseu jogou-lhe na cara: “Que tenho eu a ver contigo? Vai procurar os profetas de teu pai e de tua mãe!… Pela vida de Javé, a quem sirvo, se não fosse em atenção a Josafá, rei de Jerusalém, eu não te daria atenção, nem sequer olharia para ti!”
Entretanto, concentrando-se em oração, Eliseu proclamou o oráculo de Javé: “Não vereis vento, nem vereis chuva, mas este vale se encherá de água e bebereis, vós, vossos rebanhos e vossos animais de carga. Mas isto ainda é pouco aos olhos de Javé, pois ele entregará Moab em vossas mãos”. E foi o que aconteceu de fato, como narra o terceiro capítulo do segundo livro dos Reis.
Jeú (2Rs 9,1-10, 34) – No seu encontro com Deus no monte Horeb (1Rs 19, 15-16), Elias recebera a missão de ungir dois reis: Jeú como rei de Israel, e Hazael como rei de Aram em Damasco. Diretamente, Elias não fez nem uma coisa nem outra. Todavia, como a ordem de Deus incluía também a unção de Eliseu como profeta em seu lugar, coube a este executar a arriscada intervenção na política internacional, como foi a unção de Hazael (Cf. 2Rs 8, 7-15). Já a unção de Jeú, Eliseu delegou-a a um dos seus servos: “Chamando um dos irmãos profetas, disse-lhe: Cinge teus rins, toma contigo este frasco de óleo e parte para Ramot de Galaad. Chegando lá, procura Jeú, filho de Josafá, filho de Namsi. Tendo-o encontrado, chama-o do meio de seus colegas e leva-o a um aposento separado. Tomarás, então, o frasco de óleo e o derramarás sobre sua cabeça, dizendo: Assim fala Javé: Eu te unjo como rei de Israel; depois, abre a porta e foge depressa” (2Rs 9, 1-3).
É interessante notar que, em nenhum momento, a Bíblia mostra Eliseu envolvendo-se diretamente com o violentíssimo Jeú, que foi o implacável exterminador de toda a família de Acab e Jezabel (2Rs 10,11).
Joacaz (2Rs 13,1-9) – Joacaz era filho de Jeú, porém muito diferente do seu truculento pai. Seu reinado de 17 anos foi muito prejudicado pelas frequentes incursões de Hazael, rei de Damasco. Isso obrigou-o a apelar para Javé, que o atendeu “porque viu a tirania com que o rei de Aram oprimia Israel”.
Embora não esteja explícito na Bíblia, alguns estudiosos acreditam que o pitoresco episódio de 2Rs 6,8-23 tenha acontecido durante o reinado de Joacaz. O rei de Aram estava em guerra contra Israel. Cada vez que ele armava secretamente alguma cilada contra Israel, o profeta Eliseu prevenia o rei israelita, que frustrava as iniciativas do inimigo. E isso se deu não apenas uma ou duas vezes.
Irritado, o rei arameu convocou seus oficiais para perguntar quem, dentre eles, estaria espionando para Israel. Um dos oficiais respondeu: “Ninguém, senhor meu rei, mas é o profeta Eliseu que revela ao rei de Israel até mesmo as palavras que dizes no teu quarto de dormir”.
Diante disso, o rei arameu mandou uma poderosa tropa prender Eliseu na calada da noite. Ao ver-se cercado por todo aquele aparato militar, Eliseu suplicou que Javé ferisse toda aquela gente de belida (uma mancha na córnea, que gera uma aberração na vista). Deus atendeu, deixando toda a tropa momentaneamente cega; e Eliseu os conduziu durante a madrugada até Samaria. Quando estavam no centro da capital israelita, Eliseu pediu que Javé lhes devolvesse a visão. Então perceberam em que enroscada haviam-se metido.
Prontamente, Joacaz perguntou ao profeta: “Devo matá-los, meu pai? Eliseu respondeu: De jeito nenhum! Não sacaste tua espada nem disparaste uma flecha. Tudo foi obra de Deus. Ao contrário, prepara-lhes uma boa refeição e manda-os de volta para o seu país”. E o texto bíblico conclui: “Os bandos arameus não fizeram mais incursões no território de Israel”.
Joás (2Rs 13, 10-13) – Joás era filho de Joacaz e reinou durante 16 anos. Por coincidência, quando ele assumiu o trono de Samaria, o seu xará Joás já reinava em Jerusalém. Joás foi bem sucedido nos confrontos com Ben-Adad III (cf. 2Rs 13, 24-25).
As relações entre Joás e Eliseu foram boas, com exceção de um mal-entendido, que provocou uma grande crise entre os dois. No primeiro confronto com Ben-Adad, Joás levou a pior. O exército arameu sitiou Samaria, provocando uma fome tão grande que algumas mães chegaram até a matar seus próprios filhos para comer (2Rs 6, 24-31). Joás, desesperado, atribuiu toda a culpa a Eliseu: “Que Deus me faça este mal e ainda acrescente este outro, se a cabeça de Eliseu ainda lhe ficar sobre os ombros hoje!” E partiu para o ataque.
Eliseu, no entanto, sem perder a calma, anunciou que no dia seguinte, àquela mesma hora, haveria fartura de tudo na cidade. O escudeiro do rei levou a profecia na gozação. Mas Eliseu o advertiu: “Tu o verás com teus próprios olhos, mas não comerás!”
O capítulo 7 do segundo livro dos Reis narra os detalhes do milagre. A partir de então, Joás reatou a amizade com Eliseu. E quando este foi atingido pela doença que o levaria à morte, Joás foi visitá-lo e chorou sobre ele, dizendo: “Meu pai! Meu pai! Carro e cavalaria de Israel!”
Acredito que o velho profeta tenha ficado emocionado e gratificado com as palavras do rei, porque foram exatamente estas as palavras que Eliseu proferiu ao ver Elias sendo arrebatado ao céu. Tal pai, tal filho!
(Publicado em A Partilha nº 187 de novembro de 2016)









