A lepra do general
Por Frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.
Este é o quarto artigo da série A Saga de Eliseu, dando continuidade aos três precedentes: “A Mística do Manto”, “O Profeta e suas Ursas assassinas” e “O Profeta e a Sunamita”. Este novo episódio ocupa todo o capítulo quinto do segundo Livro dos Reis. Ele é redigido com maestria; claro e sóbrio.
Naamã era chefe do exército arameu. Os arameus eram uma tribo nômade de deserto sírio, que terminou por controlar todo o território da Síria. Numa de suas frequentes incursões pelo solo palestino, os arameus levaram como escrava uma moça samaritana, que ficou a serviço da esposa de Naamã.
Não obstante sua valentia e grande prestígio junto ao rei de Damasco, Naamã viu-se atingido pela lepra. Diante do espanto geral, causado pela horrível doença, a jovem samaritana, em vez de se alegrar com a desgraça daquele que havia causado a desgraça dela e do seu povo, preocupou-se antes com a saúde do general inimigo. Procurou sua patroa e garantiu-lhe que, em Samaria, havia um profeta que era capaz de curar a lepra do seu marido.
A mulher passou a dica ao esposo, que levou o caso ao rei. Este, sem mais esperar, escreveu uma carta para ser levada pelo próprio Naamã ao rei de Israel, pedindo-lhe que providenciasse a cura do seu general. Tal medida era politicamente correta, pois arameus e israelitas viviam em constante pé de guerra (Cf. 2Rs 6,8). Uma reentrada do general sírio em território israelita iria soar como uma verdadeira provocação.
E foi justamente assim que o rei de Israel interpretou a dita carta: ao lê-la, rasgou suas vestes e disse aos seus auxiliares: “Acaso sou eu um deus, que possa dar a morte e a vida, para que esse me mande um homem para eu curá-lo da lepra? Vê-se bem que ele anda buscando pretextos contra mim!”
O rei de Israel nem se deu ao trabalho de pensar no profeta Eliseu, que morava ali tão perto. Na realidade, tanto o rei Acab como os seus filhos sempre consideraram Elias e Eliseu como seus inimigos (Cf. 2Rs 3, 13-14). Daí a reação do Profeta, tão logo soube da atitude do rei: “Por que rasgaste as vestes? Que o general sírio venha a mim, para que saiba que há um profeta em Israel”. Então Naamã, com o aval do rei e o convite do próprio Profeta, dirigiu-se à casa deste, carregando consigo dez talentos de prata, seis mil ciclos de ouro e dez vestes de gala. Um presentão king-size! Parando lá com todo o seu séquito, anunciou sua pomposa chegada, e aguardou a deslumbrada reação do homem de Deus diante de tanto aparato.
Para sua surpresa, Eliseu nem sequer saiu de casa. Apenas mandou seu servo Giezi dizer-lhe que tomasse o caminho de volta para Damasco e, já que teria de qualquer modo que atravessar o rio Jordão, aproveitasse a oportunidade e mergulhasse nele sete vezes, que ficaria curado da lepra.

Naamã não gostou em nada de tal atitude, que parecia não levar em consideração a sua alta patente. Irritado, desabafou diante dos seus: “Eu imaginava que o Profeta viesse respeitosamente ao meu encontro; se concentrasse em oração ao seu Deus e pusesse a mão sobre mim, no lugar afetado pela doença, e me curasse. Além do mais, por que banhar-me nesse insignificante Jordão? Por ventura, os rios de Damasco, o Abana e o Farfar, não valem mais do que todas as águas de Israel?” Neste ponto, o arrogante general tinha razão: o rio Abana, hoje chamado Nahr Barada, desce da cordilheira do Antilíbano e, com o Farfar, atualmente conhecido como Nahr el-Awadi, gera uma apoteose de canais e árvores, formando o grande oásis, onde se situa a cidade de Damasco. Coisa que o Jordão está longe de fazer.
Instigado pelo seu mau humor, Naamã encetou o caminho de volta, sem dar a mínima atenção às palavras do Profeta. Todavia, seus servos, usando do bom senso, fizeram ver ao indignado general que ele viera de tão longe com a firme disposição de fazer tudo quanto o homem de Deus mandasse, visando à cura da lepra. Ora, o Profeta em vez de mandar o máximo, mandou exatamente o mínimo: apenas mergulhar sete vezes nas águas refrescantes de um rio, que já estava ali, no meio do caminho.
Então, o general desceu do orgulho e do carro e mergulhou no desprezível Jordão. E pronto: o milagre aconteceu!

Eliseu nos deixou aqui uma ótima lição para entendermos a natureza dos sacramentos. Cada sacramento é um sinal sensível e eficaz, que produz a graça. Porém, ele só produz a graça quando é acionado pela palavra de Cristo, secundada pela nossa fé. Por si só, o sinal sensível não passa de um sinal: a água do batismo, o óleo do crisma, o pão e o vinho da Eucaristia. Naamã achava que, se a água do rio Jordão era capaz de curar sua lepra, muito mais ainda o seriam as águas do Abana e do Farfar. A água do Jordão só o curou porque foi acionada pela palavra de Deus através de Eliseu e acreditada por ele, Naamã. Aliás, Jesus deixou isso bem claro: “Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado”(Mc 16,16), mesmo que seja batizado com a melhor água do mundo. Efetivamente, a fé é a nossa resposta à palavra de Deus.
Quando Naamã se deu conta de que estava realmente curado, a comoção foi tanta que logo deu início a um processo de conversão. Humilde e agradecido, retornou à casa do Profeta. Sem protocolo, entrou e se apresentou diante dele, confessando: “Agora eu sei que não há outro Deus em toda a terra, a não ser em Israel”! E, sumamente agradecido, prontificou-se a entregar-lhe o presentão que havia trazido. No entanto, para espanto seu (e nosso!), Eliseu não aceitou sequer um centavo: “Tão certo como vive Javé, a quem sirvo, nada aceitarei”.
Encantado com a grandeza de alma daquele homem de Deus, Naamã aproveitou o ensejo para fazer-lhe um duplo pedido. Primeiro pediu licença para levar a quantidade de terra que duas mulas pudessem carregar. Comenta a Bíblia de Jerusalém: “Só Javé é Deus. Mas, esse Deus único tem relações especiais com o povo e a terra de Israel. É por isso que Naamã levará um pouco da terra de Samaria para erguer sobre ela um altar de Javé em Damasco”.
De certo modo, o nosso velho imperador deposto, Dom Pedro II, repetiu o gesto de Naamã, vinte e seis séculos depois. No dia de sua morte, em Paris, aos 5 de Dezembro de 1891, o seu genro, o Conde d’Eu, encontrou, entre os seus pertences, um pequeno pacote, contendo uma substância escura e este bilhete: “É terra do meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria”.
O segundo pedido é tão belo quanto o primeiro: “Que Javé me perdoe o seguinte: quando o meu rei vai ao templo de Remon para adorar, ele se apoia sobre o meu braço e também me prostro no templo de Remon, digne-se Javé perdoar esta ação ao seu servo”. Ao que Eliseu respondeu: Vai em paz!
E foi assim que o general retomou o caminho de volta: em paz com Deus; em paz consigo mesmo; em paz com Eliseu e em paz com seus servos.
Só quem não ficou em paz foi Giezi: não concordou com a bobeira de Eliseu, que deixou escapar a opulenta quantia de dez talentos de prata, seis mil ciclos de ouro e dez vestes de gala. Mesmo convivendo com o Profeta, livre e despojado do jugo das coisas materiais, ele jamais buscou subir um degrau nessa escada da perfeição. Por isso, sem perder tempo, correu atrás do generoso general, no intuito de obter a sua casquinha.
Ao vê-lo aproximar-se, Naamã saltou do carro e perguntou-lhe se estava tudo bem. O pecado capital da avareza gerou logo o pecado da mentira: “Tudo bem. Meu senhor Eliseu mandou dizer-lhe: ‘Agora mesmo acabam de chegar dois jovens da montanha de Efraim, irmãos profetas. Dê para eles, eu lhe peço, um talento de prata e duas vestes de gala’”.
Naamã acreditou na história, e até insistiu para que Giezi aceitasse dois talentos em vez de um. Não esqueçamos que o talento equivalia a cerca de 35 quilos. Por isso, Naamã despachou dois jovens para levar a dinheirama, além das duas vestes de gala. Espertamente, Giezi guardou todo aquele material em sua própria casa, e despediu de volta os jovens. Ótimo! O plano deu certo!
No entanto, diz o provérbio que a mentira tem pernas curtas; não vai longe. Em seguida, Giezi apareceu cinicamente na casa de Eliseu, para o desempenho de suas tarefas corriqueiras. O Profeta perguntou-lhe a queima-roupa:
– Estás vindo de onde, Giezi?
– Não fui a lugar nenhum.
– Não? Acaso meu espírito não estava presente quando alguém saltou do carro ao teu encontro? Agora que recebeste o dinheiro, podes comprar com ele jardins, olivais e vinhas, bois, servos e servas; mas compraste também a lepra de Naamã!

E o rapaz saiu dali branco como a neve, por causa da lepra. Vale a pena recordar as sábias palavras do apóstolo Paulo: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por cujo desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a si mesmos se afligem com múltiplos tormentos” (1Tm 6,10). Todos nós sabemos disto, mas fingimos não saber. Azar nosso!
(Publicado em A Partilha nº 186 de outubro de 2016)









