O profeta e a sunamita
Por Frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.
Neste artigo dou continuidade aos dois primeiros de “A Saga de Eliseu”: “A Mística do Manto” e “O Profeta e suas Ursas Assassinas”. Mas, primeiro é preciso esclarecer o que significa “sunamita”
Sunam é uma pequena cidade situada na planície de Esdrelon, no território da tribo de Issacar, 7 km ao norte de Jezrael, no sopé do Monte Moré. Tornou-se conhecida na Bíblia por ser a terra natal de duas “sunamitas” famosas: Abisag, a bela companheira da velhice de Davi, por cuja causa Salomão terminou matando seu próprio irmão Adonias (cf. 1Rs 1, 3-4; 2, 12-25); e uma senhora de Sunam, casada com um rico proprietário da região. Esta, cujo nome não é mencionado, é exatamente a protagonista desta história, que se encontra no capítulo 4 do segundo livro dos Reis.
Convém ainda não confundir a “Sunamita” de Eliseu com a “Sulamita” do Cântico dos Cânticos (Ct 7, 1; 8,10). Este famoso poema bíblico se apresenta como sendo “o mais belo cântico de Salomão” (Ct 1,1). O nome Salomão vem de “shalom” (paz). Efetivamente, Salomão é caracterizado como sendo o “rei pacífico”. Por esta razão, o autor anônimo do poema apresenta a esposa ideal do rei da paz como “aquela que encontrou a paz” (Ct 8,10). Para justificar esta afirmação, ele, sem deixar de aludir à bela Abisag de Sunam, trocou o nome de “Sunamita” pelo de “Sulamita”, exatamente por este nome também derivar de “shalom” e significar “a pacífica”.
Antes de ser convocado pelo profeta Elias, Eliseu era abastado proprietário de terra em Abel-Meula, na planície de Esdrelon, não distante de Sunam. Nas suas andanças pela região, indo do Monte Carmelo a Samaria, ou visitando as diversas comunidades dos filhos dos profetas, ele passava frequentemente por Sunam. Da janela de sua casa, a rica senhora de Sunam podia observar os passos do homem de Deus. Seu espírito hospitaleiro – bem característico dos orientais – convidou-o para uma refeição. Tal convite terminou por virar uma rotina: toda vez que passava por lá, Eliseu entrava para comer.
Um dia, ela disse ao marido: “Olha, eu sei que é um santo homem de Deus este que passa sempre por nossa casa. Façamos para ele, no terraço, um quarto de tijolos, com cama, mesa, cadeira e lâmpada; quando vier à nossa casa, ele se acomodará lá”.

Certa ocasião, após o almoço, Eliseu recolheu-se ao seu quarto para uma soneca; e comentou com seu servo Giezi: “Essa senhora nos trata com todo desvelo. O que poderíamos fazer por ela? Chama-a aqui”. Quando ela entrou, ele se mostrou muito agradecido e disposto a fazer qualquer coisa que ela e o marido pedissem. Chegou até a propor-lhe: “Queres que eu vá interceder por ti junto ao rei ou junto ao chefe do exército?”
Como ex-proprietário de terra, Eliseu conhecia bem os principais problemas que afligiam a classe: a carga tributária, o trabalho forçado, o serviço militar; ou as incursões predatórias dos povos vizinhos (cf. 2Rs 5,2; Jz 6, 3-6).
A mulher agradeceu-lhe altivamente, dizendo que para isso lhe bastava a proteção do seu clã. Então Giezi segredou ao profeta: “Ela não tem filhos, e seu marido já é idoso”. Prontamente, Eliseu acrescentou: “Daqui a um ano, nesta mesma época, tu terás um filho nos teus braços”. Ao que ela retrucou: “Não, meu senhor, homem de Deus, não queiras enganar tua serva”. É o que diz o ditado: De esmola grande, o cego desconfia!
Mas Eliseu não estava para brincadeiras. Resultado, ela engravidou e deu à luz um menino no tempo previsto, para alegria sua e de toda a família.
O menino cresceu, como sói acontecer. Certa vez, no início do verão, ele foi ter com o pai, que estava no campo, acompanhando o trabalho dos ceifadores da cevada. De repente, começou a gritar: “Ai, minha cabeça! Ai minha cabeça!” Ele tinha sido acometido por uma insolação; muito comum naquele clima tórrido da Palestina, bem parecido com o do nosso Nordeste brasileiro. Coisa igual aconteceu, tempos depois, com Manassés, esposo de Judite: ele estava também acompanhando a colheita da cevada, “quando um forte calor atingiu-lhe a cabeça; caiu de cama e morreu em Betúlia”, não muito longe dali (Jt 8, 2-3).
Ouvindo os gritos do garoto, o pai mandou que o levassem imediatamente de volta para a mãe. Porém, já era tarde: ele faleceu nos braços dela.
A dor aguçou-lhe a criatividade materna: tomou o filho morto e o estendeu na cama de Eliseu, no quarto do terraço. Em seguida, mandou selar uma jumenta e partiu para o Monte Carmelo, em busca do homem de Deus. Eliseu avistou-a de longe e logo despachou Giezi para lhe perguntar: “Estás bem? Teu marido vai bem? Teu filho está bem?”
Sem ligar para as perguntas do servo, ela foi direto ao encontro do profeta e agarrou-lhe os pés. Giezi procurou afastá-la, mas Eliseu reagiu: “Deixa-a, pois tem a alma amargurada e Javé mo encobriu, nada me revelando”. Então a Sunamita desabafou: “Acaso eu pedi um filho, meu senhor? Antes, não te pedi que não me enganasses?”
Eliseu, vendo que não havia tempo a perder, entregou seu o seu bastão a Giezi, ordenando-lhe que fosse o mais rápido possível e o colocasse sobre o rosto do falecido. Porém, a mãe não concordou com aquela proposta e exigiu que o profeta fosse pessoalmente com ela.

No caminho, encontraram Giezi, que vinha voltando, frustrado por não ter conseguido operar um milagre. Eliseu subiu imediatamente ao seu quarto, trancou a porta e se concentrou numa profunda oração, que envolveu “seu ser inteiro, o espírito, a alma e o corpo” (1Ts 5,23). Decorrido um bom pedaço de tempo, o defuntinho espirrou e abriu os olhos. Eliseu acabava de realizar a segunda ressurreição na Bíblia, repetindo a façanha do seu velho mestre, Elias (cf. 1Rs 17, 17-24).
Abrindo a porta emocionado, entregou o garoto vivo à mãe; esta, mais emocionada ainda, lançou-se por terra, abraçando os pés do homem de Deus.
Sempre me impressionou a sobriedade dos autores bíblicos: narram um fato extraordinário como este com toda a naturalidade, sem explorá-lo propagandisticamente, como o fazem muitos pseudomilagreiros do nosso tempo, buscando extorquir dinheiro às custas das graças divinas. Parece que nunca leram os Atos dos Apóstolos, onde Pedro condena veementemente o mago Simão, que pretendera comprar com dinheiro os dons de Deus: “Pereça o teu dinheiro, e tu com ele, porque julgaste poder comprar os dons de Deus… Arrepende-te, pois, desta maldade tua, pois já te vejo na amargura do fel e nos laços da iniquidade” (At 8, 18-24).
De qualquer modo, a notícia do milagre espalhou-se por toda parte. Alguns anos mais tarde, o novo rei de Israel, encontrando-se com Giezi, pediu que lhe contasse todas as coisas realizadas por Eliseu. Justamente quando ele narrava ao rei a ressurreição do menino, apresentou-se a mãe com o filho: viera fazer ao rei um apelo pela sua casa e o seu campo. Então Giezi, tomado pela surpresa, exclamou: “Senhor meu rei, aqui está a mulher, com o filho que Eliseu fez voltar à vida!” O rei interrogou-a e ela confirmou tudo. Comovido, o monarca deferiu prontamente o seu pedido (2Rs 8, 1-6).
Como é bom ser bom! Que o digam o Profeta e a Sunamita.
(Publicado em A Partilha nº 185 de setembro de 2016)









