Carmelitas para amar a Cruz
André Phillipe F. Ralph, OTCarm (Ordem Terceira do Recife)
“A Linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus” (1Cor 1, 18). Esta afirmação do apostolo São Paulo, principalmente nos dias de hoje, ganha força e sentido que devem ser refletidos na nossa vida cristã. O mistério da cruz do Senhor ocupa um lugar central, e deve estar impresso na alma daqueles que se dispõem a seguir Jesus, pois é condição primordial para os que querem ser seus discípulos. O seguimento a Cristo Jesus se inicia pela cruz “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” (Mt 16,24)

Na sociedade atual, a busca pela cultura do bem-estar e da prosperidade tem produzido um horror ao sofrimento e a tudo o que possa contrariar o “conceito de uma vida feliz”, e isto se reflete até mesmo dentro das nossas igrejas, quando a pregação e a oração são direcionadas a uma busca pela “vitória”, pelas bençãos e por tudo o que possa agradar; há de fato uma busca pela ressurreição sem passar pelo calvário.
Continua ainda a Carta aos Coríntios: “os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca da sabedoria; nós, porém, anunciamos a Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,22-24). A cruz é, portanto, a maior prova do mistério do amor de Deus, que não hesitou em dar o próprio Filho para resgatar a humanidade perdida pelo pecado; por isso, quando a rejeitamos, rejeitamos o amor de Deus e a disposição de fazer a sua vontade integralmente.
No Evangelho, o apostolo São Pedro, tenta negar a cruz e o sofrimento, e até mesmo repreende Nosso Senhor, quando Ele anunciou que iria sofrer, e recebeu do próprio Jesus a resposta: “Afasta-te de mim Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mt 16,23). É inconcebível pregação de um cristianismo sem cruz; uma mentira inaceitável!
Desde o início da nossa Ordem no Monte Carmelo, o mistério da Cruz esteve presente na nossa espiritualidade de forma intensa. A Regra de Santo Alberto já prescrevia o início do jejum para os Carmelitas, desde a Festa da Exaltação da Santa Cruz, no dia 14 de setembro até a Páscoa da Ressurreição. O Rito Litúrgico Carmelita, usado oficialmente pela Ordem até as reformas do Concílio Vaticano II, era baseado no Rito do Santo Sepulcro de Jerusalém ou Rito Jerosolimitano. Nele a linguagem da cruz é bastante ressaltada nos gestos, dentre os quais o sacerdote rezava todo o Canon (Oração Eucarística), de braços abertos em forma de cruz, crucificado com Cristo, por Cristo e como Cristo.
Na liturgia do dia dezesseis de julho, solenidade principal da Ordem Carmelita, o Evangelho proposto para a Solene Comemoração da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, é justamente o relato de São João, onde nos últimos momentos da vida de Jesus ele nos entrega sua mãe como mãe da Igreja, mãe dos que o seguem. A Virgem Maria, nossa Mãe e irmã, na qual contemplamos o que queremos e desejamos ser, é a mestra perfeita na ciência da cruz. Além de todos os sofrimentos suportados com amor na vida cotidiana, recordados pela tradição da Igreja especialmente nas “sete dores”, ela nos dava sua maior lição junto à cruz do seu Filho. De pé, como fez questão de detalhar o evangelista, recebia a missão de mãe da humanidade e nos ensinava silenciosamente a permanecer de pé diante da cruz.
A exemplo de Maria, também os nossos santos, amaram a cruz e fizeram deste mistério a sua mais profunda maneira de permanecer com o Senhor, escreveram exaustivamente sobre isto e grande parte são representados na sua iconografia segurando a cruz ou abraçados com ela. O Carmelita é, portanto, intimamente ligado ao mistério da cruz, tanto nos gestos externos, litúrgicos e de piedade popular, quanto na vivência diária e determinada de amá-la e de ajudar o Senhor a carregá-la, e ainda crucificar-se com Ele.
Esta via do Calvário foi percorrida e indicada a nós pelos que radicalmente nos precederam neste caminho da perfeição. A espiritualidade da cruz deve ser vista por nós em duas perspectivas: a cruz de Cristo e a nossa cruz. Parece fácil amar o mistério da Cruz de Jesus, mas este amor só é concreto quando passamos a amar a nossa própria cruz, que se plenifica na união com Ele. Na antiga tradição do Carmelo, em cada cela (quarto) deveria haver uma cruz sem a imagem do crucificado para recordar a cada um a sua própria cruz, que deveria ser vivida e significada na paixão e morte do Senhor na certeza da ressurreição.
Amar a cruz é condição para quem quer “subir ao monte”, abandonando a si próprio e às suas vontades na disposição de entregar totalmente a vida ao Senhor, e depender totalmente da sua vontade, nos ensina São João da Cruz, para aí a alma encontrar a união perfeita com Deus. Esse amor não é para nós masoquismo, ou um simples apego depressivo, porque não é o sofrimento o fim último, mas ele é consequência do amor a Jesus e da vontade de querer segui-lo imitando-o.
Santa Teresa de Jesus sempre exorta em seus escritos a assumirmos a cruz e sermos companheiros do Senhor na sua dor. No capítulo quinze do Livro da Vida ela escreve: “importa começarem as almas a terem oração, indo se desapegando de todo o gênero de contentamentos e entrarem nela, determinados única e somente a ajudarem Cristo a levar a Cruz, como bons cavaleiros que sem soldo algum querem somente servir a seu Rei”.
Santa Teresinha do Menino Jesus, compreende e oferece todo o seu sofrimento a partir da cruz. Na sua poesia Mon chant d’aujourd’hui – Meu canto de hoje, ela declama: “compreendi que pela Cruz se salvam os pecadores. Pela cruz minha alma viu abrir-se um novo horizonte”.
Para a sociedade atual, amar o sofrimento é loucura, parece absurdo, mas esta loucura para nós encontra sentido na Paixão do Senhor que tudo deu por nós. Que podemos nós então oferecer a Ele se não o nosso tudo, nossas alegrias e conquistas, mas também o nosso sofrimento e fracasso suportados com amor para assemelharmo-nos a Ele? Este amor consciente e desinteressado produz em nós a serenidade e a paz interior.
O sofrimento surge e é comum na vida de cada pessoa. Assumir a cruz, no entanto, não se trata somente de enfrentá-lo como algo inevitável, mas, pela fé e amor, abraçá-lo e abandonar-se à Divina Vontade. O Carmelita é então aquele que ama a cruz, ama-a mesmo sabendo que esta causará dores, machucará, será incomodo, e que até o levará à morte; mas ela, em Cristo, nos levará a ressuscitarmos com Ele, para a vida verdadeira.









