Carmelitas para amar a Cruz

André Phillipe F. Ralph, OTCarm (Ordem Terceira do Recife)

A exemplo de Maria, também os nossos santos, amaram a cruz e fizeram deste mistério a sua mais profunda maneira de permanecer com o Senhor, escreveram exaustivamente sobre isto e grande parte são representados na sua iconografia segurando a cruz ou abraçados com ela. O Carmelita é, portanto, intimamente ligado ao mistério da cruz, tanto nos gestos externos, litúrgicos e de piedade popular, quanto na vivência diária e determinada de amá-la e de ajudar o Senhor a carregá-la, e ainda crucificar-se com Ele.

Esta via do Calvário foi percorrida e indicada a nós pelos que radicalmente nos precederam neste caminho da perfeição. A espiritualidade da cruz deve ser vista por nós em duas perspectivas: a cruz de Cristo e a nossa cruz. Parece fácil amar o mistério da Cruz de Jesus, mas este amor só é concreto quando passamos a amar a nossa própria cruz, que se plenifica na união com Ele. Na antiga tradição do Carmelo, em cada cela (quarto) deveria haver uma cruz sem a imagem do crucificado para recordar a cada um a sua própria cruz, que deveria ser vivida e significada na paixão e morte do Senhor na certeza da ressurreição.

Amar a cruz é condição para quem quer “subir ao monte”, abandonando a si próprio e às suas vontades na disposição de entregar totalmente a vida ao Senhor, e depender totalmente da sua vontade, nos ensina São João da Cruz, para aí a alma encontrar a união perfeita com Deus. Esse amor não é para nós masoquismo, ou um simples apego depressivo, porque não é o sofrimento o fim último, mas ele é consequência do amor a Jesus e da vontade de querer segui-lo imitando-o.

Santa Teresa de Jesus sempre exorta em seus escritos a assumirmos a cruz e sermos companheiros do Senhor na sua dor. No capítulo quinze do Livro da Vida ela escreve: “importa começarem as almas a terem oração, indo se desapegando de todo o gênero de contentamentos e entrarem nela, determinados única e somente a ajudarem Cristo a levar a Cruz, como bons cavaleiros que sem soldo algum querem somente servir a seu Rei”.

 Santa Teresinha do Menino Jesus, compreende e oferece todo o seu sofrimento a partir da cruz. Na sua poesia Mon chant d’aujourd’huiMeu canto de hoje, ela declama: “compreendi que pela Cruz se salvam os pecadores. Pela cruz minha alma viu abrir-se um novo horizonte”.

Para a sociedade atual, amar o sofrimento é loucura, parece absurdo, mas esta loucura para nós encontra sentido na Paixão do Senhor que tudo deu por nós. Que podemos nós então oferecer a Ele se não o nosso tudo, nossas alegrias e conquistas, mas também o nosso sofrimento e fracasso suportados com amor para assemelharmo-nos a Ele? Este amor consciente e desinteressado produz em nós a serenidade e a paz interior.

O sofrimento surge e é comum na vida de cada pessoa. Assumir a cruz, no entanto, não se trata somente de enfrentá-lo como algo inevitável, mas, pela fé e amor, abraçá-lo e abandonar-se à Divina Vontade. O Carmelita é então aquele que ama a cruz, ama-a mesmo sabendo que esta causará dores, machucará, será incomodo, e que até o levará à morte; mas ela, em Cristo, nos levará a ressuscitarmos com Ele, para a vida verdadeira.

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