O Escapulário do Carmo
Por frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.
Comecei a usar o Escapulário do Carmo logo após minha primeira comunhão, por volta dos meus oito anos… Mas, então, o Escapulário no meu pescoço começou a despertar a curiosidade da garotada: “O que é isso? Pra que isso?” E, não raro, a admiração virava gozação. Para que eu não me sentisse desestimulado a usá-lo, meu pai – bom pedagogo que era – contou-me uma historinha, colhida não sei onde: certa vez, na Inglaterra protestante, um menino católico estava com seu Escapulário à vista. Então, um guarda perguntou-lhe com ar zombeteiro: “Garoto, para que este pedaço de pano em teu pescoço?” Ao que o menino retrucou: “E para que estes galões em seus ombros?” Estufando o peito, o guarda respondeu com orgulho: “Isto aqui significa que faço parte da corte da rainha da Inglaterra!” Ao que o menino completou, mostrando seu Escapulário: “E isto aqui significa que eu faço parte da corte da Rainha do Céu!”

Tal historinha pode não ter convencido ninguém; mas a mim convenceu, e de modo definitivo.
Por coincidência, segundo a tradição carmelitana, a devoção do Escapulário começou justamente na Inglaterra, a partir da aparição de Nossa Senhora a São Simão Stock, no dia 16 de julho de 1251.
Em 1950, por ocasião de um congresso internacional, em Roma, sobre o Escapulário, o papa Pio XII escreveu uma carta a toda a Ordem Carmelitana, na qual afirmava: “Entre todas as devoções a Maria, deve-se colocar, em primeiro lugar, a do Escapulário dos Carmelitas, a qual, pela sua simplicidade ao alcance de todos e pelos abundantes frutos de santificação que tem produzido, se acha extensamente divulgada entre os fiéis cristãos”.
Em suma, o Escapulário nada mais é do que uma parte do hábito usado pelos religiosos carmelitas. De qualquer modo, é uma veste; um símbolo da nossa pertença à grande Família Carmelitana. Nós, humanos, necessitamos sempre de símbolos para expressar os nossos sentimentos mais profundos. Nenhuma religião subsiste sem símbolos; têm-nos judeus, cristãos, muçulmanos, budistas etc. Até os sacramentos, instituídos por Jesus Cristo, são “sinais sensíveis e eficazes”.
Ninguém entendeu melhor do que São Paulo todo o alcance do simbolismo da veste. Para ele já não basta revestir-se com a veste de Jesus; é preciso revestir-se do próprio Jesus: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27); “Vesti-vos do Senhor Jesus e não procureis satisfazer os desejos da carne” (Rm 13,14).
O que estaria o grande Apóstolo entendendo com estas expressões? Não é difícil seguir a trilha do seu pensamento. Neste ponto, ele é de uma clareza meridiana.
Para Paulo, vestir-se de Jesus significa trazer no próprio corpo as marcas de Jesus (Gl 6,17); ter os mesmos sentimentos de Jesus (Fl 2,5); ter o pensamento de Jesus (1 Cor 2,16); formar um só espírito com ele (1Cor 6,17).
É dentro deste quadro que devemos entender a devoção do Escapulário. Em última análise, ele é uma veste, um hábito. É a veste de Maria e o hábito da Ordem do Carmo. Ao usá-lo, o fiel deve conscientizar-se desta dupla realidade. Primeiro, está se revestindo de Maria: assumindo o pensamento e os sentimentos dela; tomando-a como modelo de virtudes; assumindo-a como mãe e se consagrando ao seu serviço. Segundo, está se revestindo do Carmelo, penetrando e deixando-se penetrar por uma espiritualidade de oito séculos, com um lugar bem definido na Igreja, com um compromisso sério com a vida de oração, de fraternidade e de espírito missionário.
É proverbial a expressão: “o hábito não faz o monge”. Ele não é um fim, mas um meio. É um símbolo. O hábito não faz o monge, porém mostra o monge aos demais, e mostra ao próprio monge aquilo que ele deve ser, por vocação e por profissão.
A palavra hábito, além do sentido clássico de vestimenta, significa também costume, maneira de ser ou de agir. Alguém pode adquirir o hábito de caminhar, de ler, de fumar. Todos nós temos os nossos hábitos, bons ou maus. E como é urgente, hoje, recuperarmos os autênticos hábitos cristãos, que um neopaganismo desenfreado vem destruindo impiedosamente! O Escapulário que uso desde criança deve criar em mim o hábito de “pensar como Jesus pensou, sonhar como Jesus sonhou, viver como Jesus viveu…” (Pe. Zezinho). Deve criar em mim aquele hábito que Maria tinha de “conservar todas essas coisas, meditando em seu coração” (Lc 2,19) e aquele outro de repetir constantemente e em quaisquer circunstâncias o seu “sim” a Deus: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lc 1,38).
O Escapulário no meu pescoço deve ter a função de um “monumento”. Segundo explica Santo Agostinho, a palavra latina “monumentum” vem de “moneat mentem” (=advirta a mente). Um monumento é algo que deve advertir a nossa mente para algum fato, alguma realidade. Assim sendo, meu Escapulário deve desempenhar em mim o papel de um monitor permanente, que esteja sempre me advertindo daquelas vigorosas palavras de Maria nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que meu Filho disser” (Jo 2,5)!
Como todas as devoções autênticas, a do Escapulário do Carmo é eminentemente cristológica e cristocêntrica: ela existe para nos levar a Jesus através da imitação de Maria, que é a discípula perfeita. Narra-nos o Evangelho que a última coisa que Jesus viu na cruz, foi “a sua Mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava” (Jo 19,26). Tal visão deve tê-lo deixado muito feliz: sua obra não estava perdida, porque o discípulo a quem ele amava estava junto da sua Mãe. O Cristianismo será sempre vitorioso se os discípulos – todos aqueles que amam Jesus, e a quem Jesus ama – estiverem sempre juntos de sua Mãe. Afinal de contas, este foi o legado que ele nos deixou: “ Filho, eis aí tua Mãe” (Jo 19,27)!
Enfim, a historinha de meu pai deve ser levada a sério; tem fundamento!
PARA REFLETIR:
1- Qual o significado da veste na Bíblia?
2- O que significa revestir-se da veste de Maria?
3- Que hábitos deve gerar em si quem usa o Escapulário?









