A presença do profeta Elias na Liturgia
Davi Maria Santos, O.Carm[1]
A Liturgia da Igreja é permeada por diversas figuras do Antigo Testamento que se caracterizam pelo seguimento e fidelidade a Deus e a sua aliança. Entre tantos, o profeta Elias, destaca-se ocupando um lugar de especial relevância e importância na caminha de fé. Não obstante a não existência de um livro bíblico que leve o seu nome e sua missão abordada e mais bem detalhada, podemos encontrar, nos livros 1 e 2 de Reis, o profeta Elias, que se tornou um dos paradigmas da ação profética na história da salvação no antigo Israel.
A Ordem dos Carmelitas, contempla em Elias e Maria figuras daquilo que desejam e esperam ser Igreja[2]. Elias, é para os carmelitas o pai espiritual e modelo de escuta dócil à Palavra do Senhor. Assim como Elias, todos aqueles que desejam aurir a profundidade da espiritualidade carmelita deve “deixar-se conduzir pelo Espírito e pela Palavra, interiorizada no próprio coração, para testemunhar a presença divina no mundo” (Const. O.Carm, n. 26).
A vida de Elias, constitui uma verdadeira herança, não apenas para os carmelitas, como para toda a Igreja. Elias, é o profeta de fogo que arde pela causa do Senhor, restaura o culto ao verdadeiro Deus de Israel e sabe compadecer-se de uma simples viúva. Ao mesmo tempo que Elias enfrenta os “poderosos”, sabe também ser terno com os pequeninos. Elias, o profeta poderoso, que enfrenta os falsos sacerdotes de Baal é o homem que experimenta sua própria fraqueza e adentra ao deserto físico e humano de seu coração. O homem que proclama que Deus é Deus é também o mesmo que vivencia a fraqueza humana, pede que Deus tire-lhe a vida e este o oferece pão para comer e refazer as forças pois sua vida não tinha acabado.
De Elias podemos aprender que o verdadeiro profeta ou a verdadeira profecia, é antes de tudo a vivência encarnada da Palavra do Senhor, que a oração autêntica liberta para o amor e nos faz abrir os olhos para contemplarmos a Deus que se faz presente nos pequeninos e sofredores.

Pela história…
O culto a Elias remonta a séculos passados e sua veneração possui amplo espaços tanto no Ocidente, por meio dos Carmelitas, como no Oriente, entre as Igrejas Apostólicas. Os peregrinos que iam a Jerusalém costumavam parar para rezar nos lugares sagrados, dentre muitos, se encontrava o Monte Carmelo, o Monte da Transfiguração e a colina de onde, segundo a tradição, Elias foi arrebatado ao céu. Tais lugares estão permeados pela presença de Elias. Por isso, seu culto espalhasse rapidamente para além das fronteiras da Palestina e em 542, na Síria, já havia notícias de uma igreja dedicada a Elias.
A história atesta-nos uma característica que talvez possua raízes na antiga Liturgia da Ressurreição[3], que é o fato de que na antiguidade Elias era sempre celebrado junto a alguma festa cristológica, como por exemplo, a circuncisão e a transfiguração do Senhor. Tais festas, no antigo rito dos carmelitas possuíam um caráter fortemente ressurrecional.
Somente no final século XVI, o culto a Elias torna-se publico na Ordem dos Carmelitas. Tal acontecimento é um tanto tardio se comparado a devoção a Elias no Oriente, contudo, acreditava-se entre os carmelitas, que Elias não estava morto e que retornaria para ser martirizado[4], como consequência não se celebrava sua festa, haja visto que para tanto, ele precisava ter morrido[5], por isso, o culto a Eliseu[6], na Ordem, é anterior ao de Elias. Em 1551, em Veneza, pela primeira vez aparece a festa de Elias em um Missal Romano. Em 1585, a festa de Elias aparece de maneira definitiva e com oitava a partir do dia 20 de julho.
No Antigo Testamento…
Por isso, a presença de Elias na Liturgia manifesta, antes de tudo, a unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. A proclamação das narrativas de sua missão durante a 10 semana do Tempo Comum apresenta aspectos fundamentais da experiência profética:
- A confiança absoluta na providência divina, expressa no episódio dos corvos e da viúva de Sarepta[7];
- O poder da oração, que alcança o retorno da chuva após um longo período de seca[8];
- A experiência contemplativa no Horeb, onde Deus se revela não no vento impetuoso, nem terremoto, nem fogo, mas sim na suavidade de uma brisa leve que passa[9];
- E a transmissão da missão profética a Eliseu, sinal da continuidade da ação de Deus na história[10].
Assim a Liturgia da Igreja, apresenta Elias como aquele que prepara séculos antes a missão de Jesus Cristo. No gráfico abaixo podemos encontrar a citação da perícope e o contexto[11].
| 10 Semana do Tempo Comum | Perícope | Contexto |
| Segunda-feira | 1° Rs 17, 1-6 | Elias que anuncia a grande seca e é alimento pelos corvos |
| Terça-feira | 1° Rs 17, 7-16 | O encontro com a viúva e o milagre da farinha e do óleo |
| Quarta-feira | 1° Rs 17, 17-24 | A ressurreição do filho da viúva de Sarepta |
| Quinta-feira | 1° Rs 18, 41-46 | A oração de Elias e o retorno da chuva |
| Sexta-feira | 1° Rs 19, 9a. 11-16 | Deus manifesta-se a Elias na brisa suave, no Horeb |
| Sábado | 1° Rs 19,19-21 | Elias chama Eliseu para ser profeta |
Essas leituras não são escolhidas apenas por seu valor histórico, mas porque oferecem à Igreja um itinerário permanente de fé, oração, discernimento e fidelidade. A Liturgia da Palavra da 10 semana apresenta, Elias como figura/tipo de Jesus Cristo. Tanto Elias como Jesus Cristo, em especial, são enviados para reconduzir o povo à fidelidade a Deus e para tanto realizam também sinais extraordinários que manifestam o poder de Deus.
No Novo Testamento…
Entretanto, é no Novo Testamento que Elias adquire seu significado cristológico mais profundo. Nos Evangelhos, sua figura aparece intimamente ligada à identidade e à missão de Jesus. A Transfiguração constitui, dessa maneira, o ponto culminante dessa relação: ao lado de Moisés, Elias conversa com Cristo glorificado[12]. A tradição da Igreja interpreta essa cena como o encontro entre a Lei, representada por Moisés, e os Profetas, representados por Elias, ambos convergindo para o Cristo Jesus, que é a plenitude da Revelação. Assim, a Liturgia proclama que toda a economia da Antiga Aliança encontra sua consumação e plenificação no Mistério Pascal de Jesus. No gráfico a seguir encontramos um paralelo entre Elias e Jesus Cristo[13].
| Elias | Jesus Cristo | ||
| Alimenta uma viúva, em Sarepta; | 1° Rs 17, 7-16 | Alimenta a multidão; | Mt 14, 13-21; Mc 6, 30-44; Lc 9, 10-17; Jo 6, 1-15. |
| Ressuscita o filho da viúva; | 1° Rs 17, 17-24 | Sua Ressurreição nos comunica a vida; | Lc 7, 11-17; Mc 5, 21-43; Jo 11. |
| Defende a verdadeira fé; | 1° Rs 18, 20-39 | Revela definitivamente o Pai; | Jo 14, 9 |
| Oferece um sacrifício a Deus; | 1° Rs 18, 20-39 | Oferece-se a si mesmo na cruz; | Jo 10, 18 |
| Caminha ao Horeb fortalecido pelo pão; | 1° Rs 19, 4-8 | É o Pão da vida que fortalece; | Jo 6… |
| Escuta a Deus na suave brisa que passa. | 1° Rs 19, 9-13 | É a Palavra definitiva de Deus. | Mt 11, 29 |
Os Evangelhos também apresentam o profeta Elias como chave interpretativa da missão de João Batista. Ao afirmar que João veio “no espírito e no poder de Elias”[14], Jesus revela que a expectativa do retorno do grande profeta encontra seu cumprimento não em uma repetição literal de sua pessoa, mas na continuidade de sua missão de preparar os caminhos do Senhor. Dessa forma, Elias torna-se o elo entre a esperança de Israel e a manifestação tão aguardada e desejada do Messias.
Na Liturgia…
A dimensão litúrgica da figura do profeta Elias ultrapassa, contudo, a simples recordação histórica. Cada proclamação de suas narrativas torna presente uma pedagogia espiritual e humana. O profeta ensina que Deus sustenta aqueles que permanecem fiéis à sua Palavra, fortalece os desanimados, manifesta-se no silêncio da contemplação e envia continuamente homens e mulheres para anunciar sua vontade. A Liturgia transforma, assim, a memória de Elias em escola de discipulado, convidando a comunidade dos batizados a encarnar na vida a mesma atitude de escuta, confiança e zelo pelo Senhor. Por isso,
Elias é o profeta solitário que cultiva a sede do Deus único e vive na sua presença. Ele é o contemplativo arrebatado pela paixão ardente pelo absoluto de Deus, cuja palavra ardia como fogo. É o místico que, depois de um longo e penoso caminho, aprender a ler os novos sinais da presença de Deus. É o profeta que se envolve na vida do povo e, lutando contra os falsos ídolos, o reconduz à felicidade da Aliança com o Deus único (Const. O.Carm, n. 26).
Nesse sentido, na Liturgia, Elias, simboliza para a Igreja o homem zeloso pela causa de Deus, fiel a aliança e a força da oração. Elias, é ainda homem que ouve a Palavra do Senhor no silêncio e espera a manifestação definitiva do Senhor. Por isso, a Tradição da Igreja, olhando para Elias e Jesus Cristo encontra diversos paralelos que nos ajudam a sentir a profunda ligação do Antigo Testamento com o Novo Testamento. Tal paralelo se faz necessário para que compreendamos melhor a pessoa de Elias a partir de Jesus Cristo.
| Tempo litúrgico | Perícope | Contexto |
| 2° Domingo da Quaresma (anos A, B e C) | Mt 17; Mc 9; Lc 9 | Elias aparece na Transfiguração ao lado de Moisés. |
| Solenidade da Transfiguração[15] | Mt 17, 1-9; Mc 9, 2-10; Lc 9, 28-36 | Elias testemunha que Jesus é o cumprimento dos profetas. |
| Domingos do Tempo Comum | Mt 11, 14; 17, 10-13; Mc 6, 15; 8, 28; 9, 11-13; Lc 1, 17; 4, 25-26; 9, 8-19. | Elias é recordado como um precursor de Jesus Cristo. |
Essa perspectiva adquire especial riqueza na tradição carmelitana. Desde as origens da Ordem, Elias é venerado como pai e inspirador da espiritualidade do Carmelo. O lema bíblico: “Vive o Senhor, em cuja presença estou” (1Rs 17,1) tornou-se expressão da vocação contemplativa, caracterizada pela permanente consciência da presença de Deus.
Sua memória litúrgica…

A memória litúrgica do profeta Elias, muito embora não se encontre mencionada no Missal Romano, celebra-se em 20 de julho, conforme o calendário próprio da Ordem dos Carmelitas[16], reforça essa identidade espiritual e recorda que a contemplação autêntica conduz inevitavelmente ao testemunho profético, e que esta não é uma abstenção dos sentidos, muito pelo contrário, trata-se até de tudo de encontrar Deus presente em cada circunstância da vida.
Sob o ponto de vista da teologia litúrgica, a presença de Elias confirma um princípio fundamental: a Liturgia não apenas recorda acontecimentos do passado, mas no hoje da história humana, presentifica a Páscoa do Senhor. Ao proclamar as narrativas do profeta, a Igreja reconhece que o mesmo Deus que falou por meio de Elias continua falando hoje a seu corpo místico reunido. Sua Palavra permanece viva e eficaz, conduzindo os fiéis ao encontro com Cristo, Palavra definitiva do Pai.
Pode-se concluir, portanto, que Elias ocupa um lugar privilegiado na Liturgia por ser uma das figuras veterotestamentárias que melhor expressam a continuidade entre promessa e cumprimento. Sua missão profética, sua vida de oração, sua experiência contemplativa e sua esperança escatológica encontram sua plenitude no Ressuscitado, Jesus Cristo. Assim, cada vez que a Igreja proclama suas narrativas ou faz memória de sua presença nos Evangelhos, convida os fiéis a renovar a própria vocação profética, alimentando-se da Palavra e Pão sacramentado, perseverando na oração e permanecendo, como Elias, na presença do Deus vivo.
Referências
A Palavra do Senhor I Lecionário Dominical. São Paulo: Paulus, 2021.
A Palavra do Senhor II Lecionário Semanal. São Paulo: Paulus, 2021.
A Palavra do Senhor III Lecionário Santoral. São Paulo: Paulus, 2021.
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
Constituições da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Braga: Diário do Minho, 2022.
Missal do Carmo. Paranavaí-PR: Editora Livraria Nossa Senhora do Carmo1987.
POIROT, Èliane. Eliseu profeta. In: BOAGA, Emauele; BORRIELO, Luigi. Dizionario Carmelitano. Roma: Cittá nuova, 2008. P. 326-330.
VELLA, Alexander; TINANBUNAM, Edison. POIROT, Èliane. Elia profeta. In: BOAGA, Emauele; BORRIELO, Luigi. Dizionario Carmelitano. Roma: Cittá nuova, 2008. P. 310-324.
[1] Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil e da Academia Marial e Aparecida.
[2] Cf. Const. O.Carm, n. 25.
[3] Antigo rito dos carmelitas, posterior ao Concílio Vaticano II.
[4] Esta é a justificativa pela qual algumas províncias da Ordem celebram Elias com paramentos de cor vermelha e não branco.
[5] Cf. Vella, et al, 2008.
[6] Cf. Poirot, 2008.
[7] Cf. 1° Rs 17.
[8] Ibidem 18.
[9] Ibidem 19.
[10] Cf. 2° Rs 2.
[11] Cf. Lecionário Semanal, 2021.
[12] Cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-10; Lc 9,28-36
[13] Cf. Lecionário Dominical, 2021.
[14] Cf. Lc 1,17; Mt 11,14; 17,10-13
[15] Cf. Lecionário Santoral, 2021.
[16] Cf. Missal do Carmo, 1987.









