A mística em Santa Teresa D’Ávila e sua importância para o leigo carmelita
Ir. Marcos Lessa, OTC
Quando falamos em mística católica, um dos primeiros nomes que vem à nossa mente é o de Santa Teresa D’ávila, Doutora da Igreja e reformadora do Carmelo no século XVI. Ao lado de São João da Cruz, ela “fundou a Ordem dos Carmelitas Descalços” que visava antes de tudo um maior rigor disciplinar, uma maior centralidade na oração contemplativa e uma clausura rígida. Em seus escritos, Santa Teresa construiu uma espiritualidade centrada no interior para corrigir um problema de sua época e da nossa: as distrações exteriores! Para ela, em vez do homem se voltar para os problemas do mundo, ele deve realizar um movimento para o interior da alma, o caminho espiritual, para se construir a amizade com Deus.
Em sua obra de referência “Castelo Interior ou Moradas”, ela descreve, numa perspectiva alegórica, nossa alma há um grande castelo com sete moradas, percorridas pela oração, autoconhecimento e evolução espiritual até a união mística com Deus. Sua experiência mística com o divino tem particularidades próprias e influencia a Igreja até hoje. Seus relatos sobre os estágios de oração e como se desenvolvem até a união da alma com Deus chega a ter precisão cirúrgica. A mística teresiana não é um fenômeno extraordinário reservado a poucos eleitos, mas o amadurecimento do alto conhecimento e evolução espiritual disponível também ao leigo carmelitano. Em outras palavras, é o amadurecimento da vida orante.
Em Teresa, o momento de oração é uma íntima relação contemplativa e não apenas uma técnica ou fórmula vocal. Ela conceitua a oração mental como “tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama” – Ou seja, uma intimidade progressiva e não um método orante. Em outra obra, O Livro da Vida, ela usa a metáfora da água para descrever os quatro graus da oração, comparando o esforço pessoal e a graça divina a diferentes formas de irrigar um jardim:
- Tirando a água do poço com esforço (oração vocal/meditação inicial, muito trabalho);
- Usando uma roda e um balde (recolhimento, menos esforço);
- Comparando a água de um rio ou riacho (oração de quietude, a alma já recebe mais passivamente);
- Observando a água da chuva que rega tudo sem esforço algum (união mística, ação quase totalmente divina).


Pois bem, como esta alegoria do jardim pode influenciar o leigo carmelita hoje? De fato, Santa Teresa escreveu dentro de um mosteiro para um ambiente de clausura e não para um ambiente secular como o nosso. Mas, cabe-nos aqui uma lembrança importante: a amizade pessoal com Deus não depende exclusivamente de uma clausura, mas de uma abertura da alma que gere em nós um “Carmelo Interior” como diz John Wu. Para o leigo carmelita, o desafio é traduzir essa abertura e intimidade com Deus para a vida cotidiana da família, do trabalho e da realidade social como um todo. Essa imagem da água que rega um jardim, descrita por Teresa, tem um valor formativo-simbólico muito grande para nós e para nosso tempo.
Inicialmente observa-se, neste itinerário proposto por Teresa, uma meditação trabalhosa, cheia de distrações, típica de quem ora em meio ao trabalho e família. Isso não significa um fracasso, mas uma realidade que a grande maioria dos nós, leigos carmelitas, vivenciará por toda a vida. Santa Teresa ensina que isso não é motivo para desanimar e parar, mas para perseverar e continuar.
No segundo momento, a imagem da água que rega um jardim ensina que a santidade não é uma conquista, mas um dom recebido com cooperação – o jardineiro trabalha, mas quem faz a água (a graça) vir é Deus. Isso libera o leigo carmelita da ansiedade de “produzir” experiências místicas e o convida à humanidade e à fidelidade na vida orante. Pois bem, o símbolo da água, essencial à vida, conecta a interioridade contemplativa à vida ativa: o leigo carmelita é convidado a cultivar esse jardim interior dentro das responsabilidades do dia a dia do mundo, unindo Marta e Maria, sem precisar se retirar do cotidiano para buscar a união mística com Deus.
Podemos concluir, portanto, que Santa Teresa nos propõe uma catequese sobre o sentido espiritual do Batismo e de como devemos vivenciá-lo e aprofundá-lo nos passos da oração. Percebesse que a principal intuição mística de Teresa é que a alma humana é um castelo feito de muitas moradas e um grande jardim. O batismo é o ato que abre as portas desse castelo e que rega nosso jardim interior para a nossa união com Deus. Como a Trindade Santa habita substancialmente em nós pelo Batismo, devemos deixá-la regar nosso interior com sua graça.
Bibliografia:
Teresa de Jesus, Santa. Castelo interior ou moradas. São Paulo: Paulus, 1983;
Teresa, de Ávila, Santa. Livro da vida. São Paulo: Paulus, 1981;
Auclair, Marcelle. Teresa de Ávila: uma biografia. Quadrante, 2021.
WU, John. O Carmelo Interior. Rio Grande de Sul: Minha Biblioteca Católica, 2021.









