Mensagem do Prior Geral por ocasião da Solenidade de N. S. do Carmo 2026
«Todas as lágrimas chegam ao céu»
Querida família carmelita: feliz festa da Nossa Senhora do Carmo!
Mais uma vez, aproxima-se a Solenidade da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Este ano, relembramos a decisão de Bento XIII, de 24 de setembro de 1726, de estender a celebração da festa de Nossa Senhora a toda a cristandade. Demos graças a Deus por todos os benefícios que nossa Ordem recebeu ao longo desses oito séculos de história, em especial o de termos uma Mãe a quem recorrer e que cuida de nós. Santa Teresa do Menino Jesus, maravilhada, falava disso nestes termos: «Eu, Virgem abençoada, tenho duas mães a quem recorrer, uma na terra e outra no Céu, enquanto Vós não tendes uma Mãe no Céu para amar, pois Vós mesma sois essa Mãe».
1. Maria nos enche de gratidão. Em Belém, Maria envolveu o Filho em faixas (cf. Lc 2,12). Esse gesto nos lembra que Jesus, além de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem, desde o nascimento foi cuidado e amado. Na Sagrada Escritura, “ser envolto em faixas” é sinal de proteção e de afeto materno: “Ao nascer […] a primeira coisa que fiz, como todos, foi chorar. Cuidaram de mim com carinho e entre as faixas…” (Sab 7,3-4). Por outro lado, a nudez, o “não ser enrolado em panos”, indica falta de proteção e abandono: “Ninguém se interessou por ela […] Ninguém a lavou, nem a esfregou com sal, nem a enrolou em panos […] a abandonaram…” (cf. Ez (cf. Ez 16,4-5). Como é difícil cuidar da vida dos outros com generosidade e gratidão, se antes não fomos capazes de contemplar nossa própria vida como um milagre e um dom imerecido! Kierkegaard observou que a gratidão é, além de ser o sentimento mais nobre que pode brotar do coração do homem, a «resposta espiritual mais profunda ao dom da própria existência». A gratidão é, de fato, um bom termômetro para medir nossa qualidade humana e espiritual. Pessoas gratas tornam tudo mais fácil e abençoam; em vez de reclamar do que lhes falta, apreciam o que têm; afastam a crítica fácil e as murmurações… Maria, nossa Mãe, nos ensina a fazer da nossa vida um Magnificat, um canto de agradecimento.

2. Maria nos envolve em sua luz. O Carmelo surgiu na Terra Santa, no final do século XII. Fomos obrigados, em meio aos perigos, a emigrar para a Europa. A quem recorremos em meio às adversidades e tribulações? À Mãe. Ela nos defendeu. Celebramos com satisfação o 775º aniversário – segundo a tradição carmelita – da entrega do Santo Escapulário a São Simão Stock. Este não é um amuleto que nos garante a salvação, mas um sacramental que nos lembra a responsabilidade de vestir o hábito batismal. Uma vestimenta muito especial, feita de linho, que, segundo a Escritura, representa as “boas obras” dos santos (cf. Ap 19,8). O linho é extraído de uma planta, que precisa ser batida, repetidas vezes, até ficar macia, para então extrair o brilho de suas fibras. O Santo Escapulário é uma armadura que nos defende dos golpes (como o linho) que recebemos nas batalhas desta vida. Maria nos defende e nos mostra como perseverar em fazer sempre o bem… Como dizia um epitáfio judaico: “Uma boa obra realizada na terra faz nascer um fio de luz no céu. Muitas boas obras realizadas na terra fazem nascer muitos fios de luz no céu. Com que finalidade? Para entrelaçar e tecer uma vestimenta. Um manto de luz que dê glória ao Senhor das obras”. Maria nos ensina com solícito carinho a nos revestirmos dessa “armadura” (cf. Regra 19), confeccionada com muitos “fios de luz”: a misericórdia, a mansidão, a paz, a justiça, o perdão, a alegria, a esperança, o amor, etc.
3. Maria nos reveste de humanidade. No dia 25 de maio foi publicada a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, sobre a proteção da dignidade da pessoa na era da inteligência artificial. Ele pediu a toda a Igreja que a lesse e meditasse sobre ela. Diante da crescente ligação entre tecnologia, poder e violência, nos é proposta, como alternativa, uma nova civilização do amor. O Papa Leão XIV nos convida a invocar Maria, Mãe da Vida, que nos olha com misericórdia. Poderíamos citar muitos testemunhos que nos levariam a despojarmo-nos de tudo diante do sofrimento dos inocentes: aqueles que se esforçam ao máximo para encontrar um emprego e conseguir pagar as contas no fim do mês; aqueles que emigram de seus países sem acesso à educação e à saúde; a guerra, as fomes, o amor desfeito… Basta o exemplo de uma figura importante da cultura francesa, Emmanuel Mounier, o filósofo crente, que sentiu o peso da doença irreversível de sua filha pequena, que vivia em estado vegetativo:
«Ao me aproximar daquele berço silencioso, sentia que estava me aproximando de um altar, de um lugar sagrado onde Deus falava por meio de um sinal. Uma tristeza penetrante e profunda; profunda, mas leve e transfigurada. E, ao redor dela, uma adoração… não tenho outra palavra. Nunca compreendi tão intensamente o que é a oração como quando dizia coisas àquela fronte que nada respondia, quando meus olhos se aventuravam em direção àquele olhar perdido que contemplava o infinito atrás de mim. Mistério… e só pode ser de bondade. É preciso ousar dizer: uma graça demasiado elevada, uma hóstia viva entre nós, muda como a Hóstia, resplandecente como Ela… – Mounier diz à esposa –: Por quantos meses não desejamos que ela morresse, se fosse para ficar assim! Mas… isso não passa de puro sentimentalismo burguês? O que significa para ela “ser infeliz”? Quem pode nos garantir que ela o seja? Quem sabe se ela não está nos pedindo para guardar e adorar essa hóstia entre nós…? Minha pequena Françoise, para mim você é a própria imagem da fé (Carta a Paulette Mounier, 1964, 671)».
Seu testemunho é comovente… Imploremos à Mãe e à Beleza do Carmelo que nos ensine a ver a obra invisível de Deus e a olhar para o mundo a partir de baixo, pelos olhos dos mais vulneráveis. «As Sete Alegrias à Nossa Senhora do Carmo», poemas populares muito antigos, compostos principalmente para honrar a Virgem Maria, reúnem histórias antigas da tradição carmelita: «Pois tu és nosso consolo, o meio mais poderoso. Sê nosso refúgio amoroso, Mãe de Deus do Carmelo». O biblista Michele Aiguani, O. Carm. (1320-1400), afirmava que Maria é uma “fortaleza inexpugnável”, um refúgio seguro onde nos abrigarmos quando sentimos que a vida está ameaçada pela morte. São João Crisóstomo insistia no fato de que “não há maternidade sem lágrimas”. As lágrimas hidratam a alma. Deus recolhe essas lágrimas, como diz o salmista, em seu “odre”. Nenhuma lágrima se perde, todas vão diretamente para o coração de Deus (cf. Sal 55). As lágrimas intercedem para que a missão da Igreja seja mais fecunda. Chorar pela dor do próximo ou pela rejeição sofrida tem um poder santificador e reparador.
Que a Virgem Maria, a quem proclamamos Mater et Decor Carmeli (Mãe Formosura do Carmelo), nos proteja e nos conceda, com sua intercessão celestial, a força, a esperança e a alegria necessárias para que possamos refletir a bondade de Deus a serviço da humanidade.
Fraternalmente no Carmelo,
Roma, 14 de junho de 2026
São Eliseu, profeta









