Mãe e Formosura do Carmelo
Por Frei Geraldo de Araújo Lima, O.C

“Mãe e Formosura do Carmelo” é uma expressão que pode ser entendida de várias maneiras.
Do ponto de vista geográfico, podemos evocar o Monte Carmelo, na Palestina. Apesar de denominado “monte”, é na realidade uma cadeia de montanhas arborizadas, de rara beleza, voltada para o mar, em cuja base se encontra a fértil Planície do Saron. Todo este belo cenário está incrustrado na região da Samaria, de clima predominantemente seco. Inspirado na beleza do local, Isaías, ao enaltecer a Nova Jerusalém, a Filha de Sião voltando do cativeiro, diz: “Vai ser-te dada a FORMOSURA ou o decoro do Monte Carmelo e do Saron” (Cf. Is 35,2).
Porém, preferimos fazer a nossa abordagem sob outro ponto de vista. Quando falamos em Carmelo, nós não pensamos tanto numa geografia, mas numa espiritualidade, que é a vivida pela Família Carmelitana. Família esta formada por mais de 52 mil pessoas, espalhadas pelo mundo e distribuídas nas suas congregações religiosas e associações leigas
Quando dizemos que Maria é a Mãe e Formosura do Carmelo, queremos dizer que ela é a mãe dessa espiritualidade, que se apoia em três pontos: Contemplação, Fraternidade e Missão ou Apostolado. É uma espiritualidade da qual Maria é o modelo, cujas marcas estão registradas na própria Bíblia.
Maria é modelo de contemplação. Quando o anjo Gabriel lhe diz: “Ave! Cheia de Graça!” (Lc 1,28), está atestando que se trata de alguém que se deixa conduzir pela graça divina. “Maria conservava todas essas coisas, meditando-as em seu coração” (Lc 2,19). Quando conservamos em nosso interior as revelações de Deus, estamos tendo uma vida contemplativa. Estes são os traços típicos do contemplativo.
Para a vida contemplativa crescer em nós, é necessário que o “terreno” esteja bem-preparado, alicerçado na humildade e, sobretudo, no silêncio, que se constituem em matéria-prima para se deixar guiar pela graça de Deus.
Maria é modelo de fraternidade. Ela não viveu só; teve a sua família. E cuidou de um clima familiar tão modelar, que até hoje serve de inspiração para aqueles que aspiram a um verdadeiro lar. Por que isso? Porque lá em Nazaré, naquela casinha, havia uma fraternidade: cada um ocupava o seu lugar, ninguém invadia o espaço do outro. Cristo, mesmo de condição divina, se submetia àquele lar, que muitas vezes não era nem uma casa; talvez fosse apenas uma gruta ou a sombra de uma árvore a caminho do Egito. A casa poderia não existir, mas o lar sempre existiu.
Também encontramos Maria vivendo em comunidade, mesmo quando perde seu único filho. Já viúva, Ele tem a preocupação de deixar um filho para substituí-Lo: “Mulher, eis aí teu filho; filho, eis aí tua mãe” (Jo 19,26-27). Isto porque Maria vai continuar sendo a mãe de toda fraternidade!
Mas ainda encontramos Maria entre os discípulos, no Cenáculo (Cf. At 1,14). Ela é a mãe daquela fraternidade. E poderíamos até dizer: ela não é só a mãe, é também a formosura dessa fraternidade. Não é à toa que Deus a colocou como modelo de mãe, de esposa, de filha, de cidadã… é um modelo perfeito, acabado.
Maria é modelo de missão. A sua primeira missão é a visita a sua prima Isabel; uma visita para servir. Todo o serviço da casa, aquele serviço doméstico comum a qualquer pessoa, ela faz em sua casa e o faz também na casa de Isabel. Ela tem uma missão a cumprir e vai cumpri-la, mesmo que tenha que caminhar 130 quilômetros ladeirosos. Por isso que Lc 1,39 atesta: “Ela subiu as montanhas apressadamente”. Esse “subir as montanhas” representa o esforço, a ascese, a luta no caminho da perfeição.
A sua missão de mãe, ela cumpriu de forma tão completa e tão confiante: deu à luz o Filho para a humanidade, cuidando de um clima espiritual propício à missão que Ele veio cumprir no mundo. Maria é a missionária que ajuda o outro a cumprir sua missão: todo sábado estava ela e a família na Sinagoga; toda Páscoa estava ela e a família cumprindo os rituais no Templo de Jerusalém.
Vamos encontrá-la também na missão do convívio social, participando de uma festa de casamento (Cf. Jo 2,1). Talvez até preferisse estar no retiro do seu lar, no entanto, estava ali participando da alegria e também dos problemas. Estava com as “antenas” do amor ligadas: percebe que falta vinho, imagina o que isto pode causar e, com isso, além de solucionar o problema, mais uma vez ajuda na missão do Filho: leva-O a realizar o seu primeiro milagre!
Com este episódio, Maria passou a ser vista como a Mãe do Bom Conselho: “Vocês façam tudo o que Ele mandar” … (Cf. Jo 2,5).
Maria é vista, também, unida à missão de Jesus no Calvário: morrendo simbolicamente, psicologicamente, espiritualmente com o seu Filho, que está morrendo fisicamente na cruz. Ela está ali ao lado dEle. E a sua maior missão é assumir, a partir da morte do Filho, a maternidade de todos nós: “Filho, eis aí a tua mãe”.
E assim ela leva ao ponto final a sua tarefa de ser Mãe e Formosura do Carmelo que é Contemplação, do Carmelo que é Fraternidade, e do Carmelo que é Missão. Mãe e esplendor do Carmelo, rogai por nós! Amém!
PARA REFLETIR :
1- Segundo o texto, o que significa dizer que Maria é Mãe e Formosura do Carmelo?
2- Como ser uma pessoa orante, fraterna e missionária a exemplo de Maria?
Rezar pedindo a Virgem Maria a graça de imitá-la.
| Texto publicado originalmente em: A Partilha, Periódico da Paróquia do SS. Coração Eucarístico de Jesus, Recife/PE, 07/1993,) |









