Quaresma, tempo de conversão!
Dia 18 de fevereiro começamos a quaresma, tempo de conversão. O processo de conversão de Santa Teresa narrado por ela apresenta práticas que nos ajudam a aprofundar hoje a nossa experiência de conversão: a contemplação das imagens de Cristo na sua paixão, a meditação da via-crucis ou dos sete passos do Senhor, a devoção aos santos, a leitura espiritual, a consciência dos pecados e o pesar por ofender a Deus. Tudo isso, é claro, fundado numa profunda confiança no amor misericordioso de Deus. Que ela nos ajude a viver este tempo santo!
Minha alma andava já cansada e, embora quisesse, os maus costumes não a deixavam sossegar. Aconteceu-me, estando um dia num oratório, ver certa imagem trazida e guardada ali para uma festa que se ia celebrar no mosteiro. Representava Cristo muito chagado. Inspirava tanta devoção que, só de vê-lo em tal estado, fiquei muito perturbada. Mostrava ao vivo o que passara por nós. Foi tal o sentimento de ser tão mal agradecida para com aquelas chagas, que se me partia o coração. Lancei-me a seus pés, derramando muitas lágrimas e suplicando-lhe que me fortalecesse para nunca mais o ofender.
Era também devotíssima da gloriosa Madalena, à qual costumava encomendar-me para alcançar o perdão. Frequentemente pensava em sua conversão, especialmente quando comungava. Segura de que o Senhor então estava dentro de mim, colocava-me a seus pés, acreditando que minhas lágrimas não haviam de ser desprezadas. Na verdade, ignorava o que dizia. Ele fazia muito em consentir que as derramasse por sua causa, vendo-me esquecer tão depressa aquele sentimento.

Desta última vez, entretanto, quando vi a imagem, foi maior o resultado. Já andava muito desconfiada de mim e punha toda a minha confiança em Deus. Tenho ideia de haver-lhe então dito que não me levantaria dali até que atendesse o meu pedido. Estou certa de que me valeu esta súplica, pois fui melhorando muito desde esse dia. Tinha eu este método de oração: não podendo raciocinar com o intelecto, procurava representar Cristo dentro de mim. Sentia-me bem nos passos em que o via mais solitário. É que estando sozinho e aflito, como pessoa necessitada, havia de acolher-me. Destas simplicidades tinha muitas. Em especial achava-me à vontade na oração do Horto, onde lhe fazia companhia. Pensava naquele suor e na aflição, que o Senhor havia experimentado. Desejaria, se fosse possível, enxugar aquele suor tão penoso. Lembro-me, porém, que já mais ousava fazê-lo pela simples recordação de meus pecados tão graves. Ficava com ele o mais que me permitiam meus pensamentos, porque eram muitos os que me atormentavam.
Deram-me nesse tempo as “Confissões de santo Agostinho”. Parece ter sido providência do Senhor. Não as procurei e jamais as tinha visto.
Sou muito afeiçoada a santo Agostinho, por ser de sua Ordem o mosteiro onde estive como educanda, e por ter sido pecador. Com efeito, nos santos que o Senhor atraiu a si do meio dos pecados achava muito consolo, parecendo que neles encontrava auxílio. Assim como o Senhor lhes tinha perdoado, perdoaria também a mim. Só uma coisa me desconsolava: é que a eles o Senhor chamava uma só vez, e não tornavam a cair, e a mim, chamara tantas vezes. Isto me afligia. Contudo, considerando o amor de Sua Majestade para comigo, tornava a animar-me. De mim continuamente desconfiava, mas de sua misericórdia jamais duvidei.
Lendo as “Confissões”, pareceu-me ver meu retrato. Comecei a encomendar-me muito ao glorioso santo Agostinho. Quando cheguei à sua conversão e li como no jardim ouviu aquela voz, dir-se-ia que o Senhor era quem me falava, tal a dor de meu coração. Estive muito tempo desfeita em lágrimas, sentindo grande aflição e tormento. Quanto sofre uma alma — valha-me Deus! — por perder a liberdade e o domínio que de veria ter! E que tormentos padece! Admiro-me agora de como pude viver tão angustiada. Seja Deus louvado, que me deu vida para sair de morte tão mortal!
PARA REFLETIR:
Em que o texto me ajudar a viver o tempo quaresmal?
| FONTE: Santa Teresa de Jesus. Livro da Vida, Paulus, 9, 1-3. 7-8 |









