Venha o teu reino!
Pe. João Brenninger, O.Carm
Buscar a felicidade é um instinto gravado no íntimo de todo ser humano; ninguém consegue fugir disso. Toda a humanidade se movimenta e é guiada por essa busca incansável por felicidade. O que muda de uma pessoa para outra é a definição do que é ser feliz, dependendo da cultura, da época ou da visão de mundo de cada um.
Jesus entende perfeitamente esse desejo. Ele não só apoia essa busca, como nos mostra claramente onde e como encontrar a verdadeira felicidade. É por isso que, na oração do Pai Nosso, Ele nos ensina a pedir: Venha o teu reino!
O Reino de Deus (ou Reino dos Céus) significa o destino final da nossa jornada, a vida eterna ao lado do Senhor.
Como diz a Bíblia: «Venham, benditos de meu Pai! Venham receber o Reino que estava preparado para vocês desde a criação do mundo» (Mt 25, 34).
Esse lugar é definido pela ausência total de dor e sofrimento, seja físico ou emocional. Antes do julgamento final, o corpo ainda não está lá.
Quando a alma se separa do corpo na morte, as dores físicas acabam na hora. O tamanho dessa paz é algo que só vamos conseguir entender de verdade quando estivermos lá.
Mas, depois do julgamento final, o corpo vai se unir novamente à alma, só que de forma glorificada. Ele não será mais um peso ou uma limitação, mas sim um parceiro nessa nova realidade de glória e de felicidade.

Assim como aconteceu com Jesus após a ressurreição, o nosso corpo glorioso receberá quatro qualidades incríveis:
A primeira é a impassibilidade. «O corpo é enterrado como algo mortal, mas ressuscita imortal» (1 Cor 15, 42).
Isso significa que o nosso corpo, que hoje adoece e sofre tão facilmente, nunca mais vai sentir dor. Não vamos mais precisar de comida, descanso ou qualquer outra manutenção física, e a morte nunca mais será uma ameaça. «A morte não existirá mais» (Ap 21,4).
A segunda qualidade é a luminosidade. «O corpo é enterrado sem honra, mas ressuscita glorioso» (1 Cor 15, 43). Ou seja, os corpos que hoje são limitados e opacos vão brilhar com a luz divina.
O próprio Jesus confirmou isso: «Os justos brilharão como o sol» (Mt 13, 43). Ele até deu uma antecipação desse brilho aos apóstolos no episódio da Transfiguração.
A terceira qualidade é a agilidade. «O corpo é enterrado fraco, mas ressuscita cheio de força e energia» (1 Cor 15, 43).
O nosso corpo atual, pesado e lento, vai se tornar leve e celestial. Seremos capazes de nos mover de um lugar para outro instantaneamente, na velocidade do pensamento, assim como Jesus fazia depois de ressuscitar.
A quarta qualidade é a sutileza (ou espiritualidade). «É enterrado um corpo animal, mas ressuscita um corpo espiritual» (1 Cor 15, 44).
O corpo dos justos será tão sutil e transformado pelo Espírito que, sem deixar de ser físico, poderá atravessar barreiras materiais. Foi exatamente assim que Jesus ressuscitado saiu do túmulo fechado e entrou no Cenáculo mesmo com as portas trancadas.
Essas são as características dos corpos ressuscitados. Qualquer imperfeição, deficiência ou marca do sofrimento desta vida sumirá completamente. Alcançaremos a beleza e a integridade perfeitas.
A mente e as emoções também serão totalmente curadas. Não haverá mais erros, nem dúvidas, nem angústias, nem escrúpulos, nem tristeza, nem remorso pelo passado, nem preocupação com o futuro.
Nas relações humanas, os mal-entendidos, a inveja, o ciúme, as mágoas e os rancores vão deixar de existir. Tudo será perdoado e esquecido. Viveremos em perfeita harmonia e amor, conectados por Deus. A alegria de um será a alegria de todos. Como diziam os primeiros cristãos: seremos “um só coração e uma só alma”. Uma felicidade compartilhada, sem nenhum desgaste ou cansaço. O descanso eterno!
A promessa é real: «Deus enxugará dos olhos deles todas as lágrimas. Não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor, porque a antiga ordem das coisas já passou» (Ap 21, 4).
E olha que ainda nem falamos do principal: a essência da felicidade no céu é ver a Deus face a face e viver em comunhão total com Ele.
Tudo o que listamos até agora é só uma consequência disso. Os bem-aventurados verão a Deus, desfrutarão da presença Dele e viverão mergulhados na Sua própria felicidade.
Mas como nós, presos a este mundo material, podemos entender isso? O apóstolo Paulo explica: «Agora vemos como por um espelho, de forma confusa, mas depois veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei plenamente, da mesma forma que sou plenamente conhecido» (1 Cor 13, 12).
Muita gente, por tentar imaginar as coisas do céu usando a lógica da Terra, acha que olhar para a mesma coisa a eternidade inteira vai ser chato ou cansativo.
Mas elas se esquecem de que Deus é a beleza infinita. Ele nunca se esgota. Além disso, no céu não vamos enxergar com os olhos físicos, mas com os “olhos da mente e do espírito”. E a nossa mente nunca se cansa daquilo que a preenche de verdade; pelo contrário, ela ganha cada vez mais energia. O cansaço que sentimos hoje vem do nosso corpo físico e mortal, que precisa se esforçar para acompanhar a nossa mente.
No céu, tudo é espiritual, então não existe cansaço. E a experiência vai muito além de apenas “olhar” para Deus; trata-se de amar e viver em Deus. Em resumo: é uma vida plena e perfeita. É uma realidade completamente diferente de tudo o que conhecemos. É uma vida nova! Precisamos gravar essa ideia no fundo do coração. É uma existência totalmente nova.
PARA REFLETIR:
1- O que é ser feliz? Onde estou buscando a felicidade?
2- Que vida o Senhor prepara para os seus filhos na eternidade?
3- Se a felicidade eterna será uma comunhão perfeita de amor, como tenho construído minhas relações hoje, com Deus, comigo mesmo e com o próximo?
4- Como a esperança da vida eterna transforma a maneira como enfrento os
sofrimentos do presente?
Fonte: GIOVANNI BRENNINGER, O.CARM. Il Padre Nostro e la Vita Interiore, Edizioni Digi Graf, Bologna, Italia, p. 64ss









